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Colunista

José Pacheco

Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

Publicado em 02/06/2023

Supostas inovações da ainda velha escola

Aula de 50 minutos, padrão dogmático, fundamentalista, intocável

Maricá, 7 de março de 2043

Estávamos em 2023. Rumo a Brasília, para participar da Conane. Ultimei uma ‘lista de verificação’ daquilo que de ‘alternativo’ havia sido feito em 10 anos. 


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Na primeira das conferências, elaborara uma proposta de critérios de avaliação de supostas ‘inovações’. E, na posição de observador atento, iria aferi-la, tendo por referência um artigo do mestre Pedro. Não irei transcrevê-lo integralmente, apenas usarei alguns excertos. 

“Abordo a proposta do processo formativo sem cronometragens artificiais em anos, séries, ciclos. A mania de cronometrar processos não físicos, como aprendizagem, é resquício positivista instrucionista, que recua à gestão ‘científica’ de Taylor, quando cronometrou, tim-tim por tim-tim, processos produtivos e modos de os agilizar.

Os nomes variaram historicamente muito. Houve a época da escola que fazia alfabetização, e depois um ‘ginásio’. Este virou depois ‘ensino médio’, precedido de um ensino fundamental. Com a LDB, temos outras etapas cronometradas, começando por ‘educação infantil’ (enquanto o fundamental e o médio são ‘ensino’, a infantil é ‘educação’!).

A cronometragem aparece em tudo, ademais. O ano tem dois semestres. O ensino fundamental passou de oito para nove anos, um gesto de total irresponsabilidade, já que só piorou os anos finais, ficando por isso mesmo. 

A alfabetização demora três anos (dos seis aos oito anos) – o governo tentou reduzir para dois, mas as prefeituras não aceitaram. Chamou-se a isto de ‘idade certa’ para alfabetizar, à revelia dos alfabetizadores mais lúcidos, como Magda Soares, que consideram alfabetização um processo vital interminável. 

Segundo a ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização), os resultados deste tipo de política educacional (Pacto pela Alfabetização na Idade Certa) são absolutamente pífios: na média, metade se alfabetiza em três anos; muitos estados ainda devem mais de 80%. 

Os dados indicam uma escola ‘analfabeta’, inepta como alfabetizadora e que, neste imbróglio inacreditável, deturpou a expressão da LDB da ‘progressão continuada’ (direito de avançar na escola, aprendendo) para ‘progressão automática’, fenômeno estapafúrdio do estudante que vai ‘caindo para cima’, sem aprender. 


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‘Anos de estudo’ perderam totalmente o sentido, porque é uma cronometragem fraudulenta: chega-se ao fim do ensino médio analfabeto em matemática. Amém. 

Houve época em que ‘ciclos’ pareciam a salvação da lavoura, ao invés de anos sequenciais, apenas para encobrir a mesma fraude do descuido com a aprendizagem. 

Uma das noções mais tolas é postular que a alfabetização se complete aos oito anos. Gostamos de encenações formalistas e burocráticas, apenas para encobrir nossa inapetência escandalosa em termos de cuidar da aprendizagem dos estudantes. 

Uma das cronometragens mais fraudulentas é a aula de 50 minutos, um padrão nacional dogmático, fundamentalista, intocável. Não faz nenhum sentido, nem mesmo se fosse para só transmitir conteúdo. 

Sendo aprendizagem fenômeno aberto e complexo, 50 minutos não é referência para nada, representando apenas uma visão tacanha de escola/fábrica que monta peças cronometradas. Não existem aprendizagem de 50 minutos, nem leitura, nem produção de conhecimento, nem autoria. Mas a escola é tudo e só isso!

Juntei este naco de prosa a outras contribuições para a elaboração de um critério: qualquer projeto que mantivesse intacta a segmentação cartesiana e a tradicional padronização do tempo não poderia ser considerado ‘alternativa’, nem contribuiria para uma ‘nova educação’.

Escute nosso episódio de podcast:


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