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Fernando José de Almeida

Professor de pós-graduação em educação: currículo na PUC-SP e secretário municipal de Educação da cidade de São Paulo (2001-2002)

Publicado em 14/11/2022

Professa professor, professa

Dramaturgia, ritualidade e celebração. Assim é a aula. E não apenas um conjunto de atividades sem sentido para formar habilidades para o mercado de trabalho

O que causou tanto encantamento na minha infância pela figura do ‘meu’ professor ou da ‘minha’ professora? O sentido de dignidade da sua pessoa? A investidura de uma sabedoria que é só dela? O sentimento de que ela vai me acompanhar para sempre, mesmo que o esqueça?  

Eu morava numa estreita rua sem saída. As montanhas de pedra que cercavam a cidade me davam segurança. Com pais amorosos, eu ficaria ali, sempre, bem quieto e feliz com a leveza do verde e as brincadeiras de caçar sapos ou de jogar futebol na rua, ainda de terra. 

Um dia inauguram-se a escola e os professores. Eles entraram na minha vida e trouxeram mundos que meus pais, vizinhos ou parentes nunca me trariam.  

D. Jandira, D. Ítala, alfabetizadoras. D. Conceição Abicalil – diretora da escola, que respeito! Professor Cláudio, de matemática, ia de bicicleta para a escola. De terno e presilha na calça para não prender a bainha na corrente da bicicleta. De pasta e cabelo milimetricamente dividido com régua. 


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Depois veio o ginásio, com professores aos montes, de idades e conhecimentos diferentes. Eram como mágicos que abriam livros, exalavam seres coloridos, exóticos, traziam um zumbido de espanto, certa tontura e encantamento.

Regiões novas na Terra. Espaços interestelares, literaturas, canções bélicas ou românticas, maldades das fábulas, riquezas e guerras, fratricidas e imbecis… 

Os professores tinham humores diversos e abriam-me os mistérios de seus baús. Cada um deles, nos 50 minutos de aula, nos desenrolava inesperadamente um mapa, uma canção, um jogo ou uma oficina. Espaço sideral em que as constelações pareciam centauro ou escorpião. Hino de outro país que contava uma revolução havida na Europa: “Vamos, crianças da pátria, chegou um dia de glória – os tiranos querem cortar nossas gargantas, levantando uma bandeira ensanguentada!” Eu ficava impressionado com tais histórias de soldados, de reis, de batalhas, de ditos heroísmos e de outros povos, outras línguas, outras músicas, outras roupagens.

Com eles, aprendi onde estou. Aprendi também que há outros lugares onde outros estão. Aprendi que há pontos cardeais (?). Para quê quero saber isso? (A pergunta já é parte da função da aprendizagem!) 

As coisas existem e têm nomes, podem ser medidas e tais realidades nomeadas podem ser descritas e narradas. Eu percebi que as coisas podem não ter fim nunca, um, dois, 20, …5 milhões trezentos e vinte nove mil e seiscentos… os números, nunca, nunca acabam. E eu posso ir desenrolando esta fita de números sem fim e junto com eles torno-me um pouco infinito.  

Cada coisa tem seu correspondente nome. Entrei num mundo simbólico. Nele posso escrever e contar coisas a outras pessoas…. aprendi que existem ideias, pensamentos e imaginação. As pirâmides e os dinossauros, o broto de feijão que nasce quando fica um tempo num algodão com água. Mistérios do cristal que refrata e abre as cores da luz branca nas cores do arco-íris e que se transportam no universo inteiro até chegar a distâncias infinitas. Perdi um amigo (meus pais disfarçaram), a escola contou para mim o mistério da perda.

As histórias se multiplicam num ambiente que me abriu mundos. Deles, nem tudo me lembro, mas de tudo fica um pouco. Mesmo que não lembrado, tudo conformou as nossas entranhas cognitiva e valorativa. Por exemplo, os gregos queriam saber a origem da matéria e seus componentes últimos. E formularam a noção de átomo. Nossos professores, quando chegam à química, nos apresentam a tabela periódica de Dmitri Mendeleiev (1834-1907), que vai criar uma espécie de mapa celeste de todos os elementos químicos conhecidos. O espetáculo causado na inteligência de um aluno quando percebe a beleza do quadro que engloba toda a matéria do universo, nomeando cada elemento e apresentando-lhes as características, é milagre, no meu modo de ver. Toda a riqueza do trabalho do professor não está na memorização da tabela (é claro!), mas na síntese de vida que se faz ao compreender o significado deste longo trabalho de conhecimento construído socialmente.

Perguntarão os mais pragmatistas e acumuladores: “Mas ninguém se lembra do peso atômico do carbono?” Eu responderia: “Assim como não me lembro do que almocei na semana passada, mas o resultado da tal refeição está incorporado em meu sangue, nos ossos e compõe agora minhas células cerebrais”. 

O professor, como agente social, tem a teatralidade ao narrar, ritualizar, comemorar, imaginar e trazer o que os alunos nem tinham pensado ainda. Ele parte do que o aluno viveu e vai trazendo às crianças, aos jovens, a outros adultos o que eles não sabiam ainda. Suas aulas têm origem no saber próximo da comunidade escolar que inaugura mundos da necessidade imediata. Mas o mundo de que ele precisa nem sempre é aquele de seu querer imediato.

Dramaturgia, ritualidade e celebração. Assim é a aula. E não apenas um conjunto de atividades sem sentido para formar habilidades para o mercado de trabalho. 

A circulação do professor pelo espaço da ‘aula’ (pátio interno dos antigos palácios) traz a animação dos teatrólogos, a provocação dos vendedores ambulantes, a alegria de um espetáculo em que todos aportam ideias que correspondem às que os ouvintes admiram, mas ainda não sabiam. O professor pergunta, provoca, articula o que os aprendizes já sabem e mostra-lhes o que não sabem. Faz jogos de palavras, une áreas do pensamento: biologia com arte, física com a corporeidade, história com química, mitos com astronomia, metafísica e cotidiano, luto e transcendência….

Celebram a vida.

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