Planos de Herodes para o retorno presencial

O maior morticínio que já está se anunciando aos quatro ventos se dará quando os aproximadamente 40 milhões de alunos das escolas públicas voltarem às aulas, presenciais ou semipresenciais

Saramago, em seu livro O evangelho segundo Jesus Cristo, conta uma das mais belas histórias bíblicas, que não consta da Bíblia. Invencionice que só um escritor transcendental como Saramago poderia fazer. Ele trata da história de José que, tendo ouvido de soldados romanos o plano de Herodes de matar as crianças com menos de três anos, foge de Belém, com seu filho e mulher, por pavor da ameaça. Sem coragem, não avisa aos demais pais e mães de Belém. E, a partir daí, seu remorso é contínuo e assolado por sonhos pavorosos o resto da vida.

Leia: Novo ensino médio coloca formação técnica e profissional para dentro do currículo regular

Inesperadamente o anjo denuncia a Maria a covardia de José, dizendo: “o carpinteiro que anteriormente ouviu dos soldados o plano da matança poderia ter feito tudo, poderia avisar a aldeia de que vinham aí os soldados a matar as crianças, havia tempo para que os pais delas as levassem e fugissem, podiam, desse modo, esconder-se no deserto, fugir para o Egito à espera de que morresse Herodes, que está por pouco”. José foge, salva seu filho, porém nunca mais se livra dos sonhos culpados de seu ato insolidário e covarde.

Mesmo tendo um caráter mítico, a tal história de Saramago sobre José de Belém cria um aviso para nossos inconscientes que merece ser pensado. Como nos portamos com relação à mortandade infantil quando nossos filhos foram salvos nos tantos Egitos que ainda existem? Desse modo afirmo aqui não de uma culpa individual, porém de uma dívida de todo o país que não consegue dar um passo sólido e contínuo na direção de uma educação libertadora que evite certamente e para sempre o surgimento de outros Herodes.

Foto: Envato Elements – retorno presencial

Herodes contemporâneos

O inconsciente coletivo ainda nos organiza e protege de sofrimentos. Exemplo, os filhos de muitas famílias estudam em boas escolas privadas ou públicas e têm todas as condições de cultura, acesso às tecnologias e harmonia afetiva para juntar energias e estudar, aprender, exercitar-se. E há outras famílias e suas crianças que se encontram na mira de outros Herodes contemporâneos que lhes retiram condições de aprender sob os mais diferentes e matreiros argumentos.

Alguns Herodes dizem: “as crianças com alguma deficiência atrapalham os demais. Degole-os”. Outros, os modernos Herodes, dizem: “esses jovens e crianças são incapazes de aprender no mesmo ritmo que o planejado na relação idade/série. Reprovem-nos”. Outros ainda: “eles são irrequietos, desmotivados e desinteressados. Deixemo-los em recuperação”. Ainda outros: “não precisam fazer cursos superiores. Insiramo-los no mercado de trabalho em ofícios uberizados, para ganharem experiência e complementarem os salários familiares. Vender água nas marginais ou biscoito de polvilho serão suas experiências como primeiro projeto de vida”. Startup dos pobres.

Porém, o maior morticínio que já está se anunciando aos quatro ventos se dará quando os aproximadamente 40 milhões de alunos das escolas públicas voltarem às aulas, presenciais ou semipresenciais. Quais serão as espadas dos soldados de Herodes a serem brandidas contra eles? O anjo lá de cima diria a Maria: “as avaliações ameaçadoras lhes perguntarão à exaustão o que eles deixaram de aprender ou se esqueceram durante os dois anos de pandemia”.

Leia: 59% dos disléxicos não receberam adaptação pedagógica na pandemia

A aprendizagem não parou

Igualmente, não entendo a fúria malsã de inúmeros secretários de Educação de estados e municípios que se armam de instrumentos ‘avaliativos’ para levantar furiosamente com o objetivo de vasculhar as almas das crianças e jovens para saberem o que eles não sabem! Para depois, não menos furiosamente, recuperar, recuperar, recuperar…. Parece-me que se quer mostrar que a culpa de descalabros da educação formal deve recair nas crianças e não nas situações criadas pelo próprio modelo de exclusão social.

Insisto aqui que, na realidade, não houve “apagão” nenhum durante a pandemia. As crianças continuaram nesse período a aprender. Se não foram os aprendizados convencionais, previstos nos planos escolares, outras quase infinitas aprendizagens foram vividas e difundidas entre eles. Não foram sistematizadas nem valorizadas (cabe à escola agora fazer isso por meio de seu currículo). Porém milhões de conceitos e de experiências cognitivas foram trabalhados, comunicados.

O que falta? Cabe ao sistema educacional brasileiro, sob responsabilidade do sistema escolar, sistematizar o que foram tais aprendizagens. Por tanto haveria um grande empenho, unindo os sistemas de todas as modalidades de ensino básico e superior, as universidades e institutos de pesquisa em âmbito nacional, com o intuito de sistematizar não as aprendizagens individuais, porém a grande massa de aprendizagem dos 40 milhões de jovens e de suas culturas a partir das ricas vivências havidas.

Leia: Alfabetização, caminho para a construção de uma sociedade menos desigual

A solução

Minha proposta é a de fazer um grande inventariamento sobre o que as crianças, jovens, professores, gestores das escolas e sua comunidade aprenderam durante a pandemia. Desse modo tal aprendizagem não é aquela dos adjuntos adnominais ou das equações de segundo grau, a saber das grandes percepções da vida, que atravessam o cotidiano de todos eles: a origem de suas famílias, as suas leituras das mídias, seus territórios, aprendizagem nas redes de comunicação, as percepções do próprio corpo, os elementos das ciências presentes no dia a dia, as suas leituras e escritas, como tratam os gráficos das taxas de mortalidades, os vídeos que postaram durante a pandemia, as experiências psicológicas da ausência dos colegas, as reflexões que fizeram sobre o próprio futuro, etc. etc.

Inegavelmente sob o mesmo ponto de vista isso seria feito em todos os espaços disponíveis para a escola, em cada unidade escolar, em cada sala e por grandes universidades, institutos de pesquisa como Carlos Chagas, Cesgranrio entre outros, que sintetizariam o conjunto em seguida se extrairiam os temas geradores para que se iniciasse a construir de forma significativa a Base Nacional SOCIAL e CULTURAL Curricular para a Educação.

Fernando José de Almeida é professor de pós-graduação em educação: currículo na PUC-SP e foi secretário municipal de Educação da cidade de São Paulo (2001-2002).

Leia também

Diretora e diretor escolar falam de seus desafios e conquistas

Envie um comentário

Your email address will not be published.