Currículo escolar precisa incluir métodos para enfraquecer cyberagressão

Painel em 3º dia da Jornada Bett Online discutiu o papel da escola nas práticas de convivência online e mostrou como implementar programa de combate ao cyberbullying, sexting e outros tipos de ataques digitais

Convivência ética e valores potencializados pela tecnologia foram temas da plenária de Telma Vinha, doutora em educação e coordenadora do grupo de estudos na Unicamp Ética, diversidade e democracia na escola pública, juntamente com Cesar Augusto Amaral Nunes, doutor em física e docente também da Faculdade de Educação da Unicamp, realizada ontem, 13, na Jornada Bett Online. O centro da discussão foi sobre a responsabilidade da escola em formar sujeitos para a cidadania, de maneira que convivam em espaços coletivos, como a internet, com juízo de valores baseados em respeito e ética. Os ministrantes defenderam ainda a inclusão dessa pauta no currículo escolar.

Ao mesmo tempo que as redes possuem inúmeros aspectos positivos como a rápida disseminação de informações, agilidade nas comunicações, expansão do contato com o mundo e tenham transformado as formas de se relacionar, o universo online também agravou as agressões e a falta de empatia.

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Facilidade em ser tanto autor quanto vítima das cyberagressões

As chamadas cyberagressões abrangem violências praticadas nas redes, conhecidas como cyberbullying (bullying online), shaming (humilhação pública), sexting (exposição íntima), cyberstalker (perseguição online), cyberassédio, discurso de ódio, linchamento virtual (famosa cultura do cancelamento) e tantos outros ataques capazes de destruir a sanidade mental e afetar a capacidade de sociabilização de qualquer indivíduo, principalmente os que estão em fase de desenvolvimento.

cyberbullying

Foto: Freepik

“Nós e nossos jovens nos relacionamos com tudo isso ao mesmo tempo e podemos tanto ser autores quanto vítimas dessas agressões”, disse Telma Vinha. Para quem agride, com exceção do cyberbullying (no qual os agressores têm a explícita intenção nisso), muitas vezes não há nem consciência por parte do reprodutor. Segundo Vinha, apenas o símbolo (geralmente em forma de meme), é observado e não há uma reflexão do usuário sobre o que está por traz da pessoa que está sendo exposta, que ela tem uma vida e que tem sentimentos.

Já para a vítima, as consequências são catastróficas. Pessoas deixam de frequentar a escola abandonando os estudos, não conseguem trabalhar, tentam suicídio e num caso de sexting, por exemplo, a própria família, por vezes não acolhe e reforça a rejeição que já vem de um público bastante ampliado.

Dados que corroboram a pauta

A doutora em educação informou que dados do UNICEF em 2019, mostraram que 1/3 entre 14 mil brasileiras com idades de 14 a 18 anos, já enviou fotos ou vídeos íntimos para alguém, e que 70% delas já receberam “nudes” sem pedir. Além disso, quase 80% já receberam pedidos para enviar imagens suas nuas.

Ainda segundo a professora, pesquisas indicam que existem um baixo nível de empatia virtualmente.

“Esse é um aspecto que deve ser desenvolvido e é fundamental que a escola assuma esse trabalho da convivência online como parte do ato de educar, do formar pessoas e cidadãos, do formar para o mundo complexo atual”, sugeriu Telma Vinha.

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Qual deve ser a responsabilidade da escola?

Mais do que fazer uma defesa da pauta, foi mostrado de que maneira ela pode ser colocada em prática. Aliás, tanto Vinha quanto Nunes fazem parte de um grupo de pesquisa no qual desenvolveram junto com outros professores, um programa que foi aplicado em escolas por mais de um ano e meio.

Como resultado, observaram que as escolas têm ação de caráter punitivo e não educativo, recorrendo a advertências e suspensões, terceirizando a solução para a família ou para a polícia e agem muitas vezes só depois que o pior já aconteceu. Ao contrário disso, os especialistas orientam, por exemplo, que a escola envolva atenção ao atuar quando um conflito ocorre, promova valores de respeito e diálogo online e atue pela prevenção das agressões, pela segurança e que dê seguimento nessas ações. “Um projeto para esse trabalho tem que ter esses quatro elementos”, enfatizou a professora.

“A escola é a instituição socializadora, então ela também é responsável por formar sujeitos para conviver nesse espaço coletivo. Quando se pensa em educação integral formando para a cidadania, não podemos esquecer essa dimensão”, concluiu Vinha.

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