O título é uma pergunta?

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Estava lendo outro dia um livro cujo título era uma pergunta. E o autor se questionava: haveria algum risco de o título em forma de pergunta provocar uma reação negativa do possível leitor? E se o leitor se colocasse na defensiva e preferisse não comprar o livro por causa do título perguntador?
Um título que termine em ponto de interrogação pode parecer um tanto invasivo. Parece cobrar do leitor uma resposta. Ou parece avisar que o leitor terá de aceitar uma resposta certa e nenhuma outra. Será bom um título assim?
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No mundo da educação, perguntas recordam provas traumáticas, exames, sabatinas de arrancar o couro, arguições capciosas de fazer o aluno chorar… de raiva.
Padre Antônio Vieira alertava: quem pergunta quer saber… e quem não pergunta quer errar. Mas talvez o autor não queira saber. Sua intenção com um título em forma de pergunta pode ser a de atrair a curiosidade dos leitores. E não está errado!

O que é aprender?

O filósofo francês Olivier Reboul escreveu um livro perguntando o que é aprender. Afinal de contas, o que é aprender? A seguir, um subtítulo, que explica tratar-se de um estudo sobre a filosofia da aprendizagem. No sumário, o filósofo formula outras perguntas: “a informação é um ensinamento?”, “a pedagogia é continuidade ou ruptura?”, “o que é um savoir-faire?”, “o que é estudar?”, “pode-se ensinar a ensinar?”, “podemos impor o saber?”, “em que consiste ser professor?”, e por aí afora.
Um bom filósofo sempre vai fazer perguntas e mais perguntas sobre inúmeras perguntas já feitas. Perguntar é como respirar. Sua maneira de pensar começa com perguntas e com perguntas prossegue e, se bobear, com perguntas conclui.
O título O que é aprender? não assusta leitores que gostam de aprender, porque aprender é perguntar, antes, durante e depois. Ou não? Será que não? O que você pensa a respeito?
Os leitores que não temem perguntar e reperguntar são descendentes daqueles que acompanhavam os lançamentos da coleção francesa Que sais-je?, criada em plena Segunda Guerra Mundial, em 1941, e até hoje existente, com mais de 4 mil títulos, abrangendo temas prováveis e improváveis.
O que eu sei? O que posso aprender? O que preciso ler? O que pensar ou para que pensar? Perguntas não faltam. Kant apresentou quatro perguntas com as quais devemos lidar: “o que posso saber?” (epistemologia, metafísica), “o que devo fazer?” (ética, política), “o que me cabe esperar?” (teologia), e “o que é o ser humano?” (antropologia).

Qual é o seu problema?

No início, é o problema. As perguntas problematizam. As perguntas tocam e cutucam. Toda pergunta cria problemas. Outro filósofo, Michel Guérin, intitulou um dos seus livros assim, O que é uma obra?. Pronto. A obra vira problema. E solução.
Toda aula poderia ser uma pequena obra-prima. O trabalho é filho da necessidade, ao passo que o trabalho artístico, com o qual se realiza a obra, é necessidade desejada pelo artista. A paixão e o entusiasmo nos motivam a criar (somos artistas). O cansaço e a rotina nos desestimulam (somos operários). Tal é a tensão em que vivemos nós, professores, poetas do ensinar e trabalhadores escolares.
Estamos diante de um problema insolúvel? Como realizaremos a obra da educação, que é também obra coletiva? Fazer perguntas é uma parte da solução? Guérin cria um neologismo que pode nos ajudar. Ele se refere ao “fictual” ao lado do factual.
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O factual é o que temos para hoje. É a série de fatos, duros como as pedras. É tudo aquilo que cai sobre os nossos ombros. É o que nos parece dificultoso na hora de arrumar a realidade. São as tarefas que se acumulam, são as agressões que nos assustam, são os diferentes obstáculos do dia a dia escolar.
Mas existe o fictual. São os momentos em que há criatividade, improvisação, liberdade. São as possibilidades novas surgindo e relativizando as dificuldades. São as amizades, as festas, os encontros. Tudo isso que precisamos inventar para reinventar a realidade.

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Foto: Shutterstock

Quantas perguntas você fez hoje?

Anthony Clifford Grayling, filósofo e educador britânico, escreveu A arte de questionar. O intuito é mostrar ao leitor que aprendemos a pensar fazendo perguntas. E poderia ser diferente? O livro é guiado por perguntas, estranhas, polêmicas, incômodas, inconvenientes, ou aparentemente inúteis: ser felizes nos torna bons?, a mente está toda no cérebro?, a democracia genuína é possível?, a palavra “bizantino” merece sua conotação negativa?, o que é genialidade?, etc.
Como era de se prever, uma das perguntas tem a ver com a educação: para que deve realmente servir a educação?
A resposta precisa ter um tom filosófico. Os filósofos se tornam filósofos quando se admiram com a capacidade humana de aprender. Somos assim. Homo quaerens. Seres que vivem procurando e perguntando. A educação existe para que nos tornemos mais pensativos e, portanto, mais responsáveis na hora de conviver, trabalhar, divertir-se, consumir, votar.
A educação, portanto, é ambiciosa. Utópica. Transcende os limites da família e da escola. O último parágrafo de Grayling para essa pergunta (escrito com aquele toque irônico que os ingleses não perdem) vale a pena ser lido e contextualizado:
Há aqueles — apenas em outros países e eras, certamente — que gostariam que a maioria da população fosse constituída de seres autômatos, pouco questionadores, não muito bem informados, incapazes de criticar e fáceis de serem convencidos, especialmente durante as eleições, quando algumas promessas sobre redução de impostos e coisas do gênero podem eliminar o incômodo de pedir que as pessoas pensem em algo (nesse caso, em quem vão votar). O motivo que faz com que essa visão redutiva e manipuladora esteja errada é exatamente o mesmo que faz com que uma educação liberal ampla, uma educação para a vida, e não apenas para o trabalho, seja importante.
Gabriel Perissé é escritor e palestrante  (www.perisse.com.br)

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