NOTÍCIA

323

Cidade faz a lição de casa

Município gaúcho oferece aos alunos da rede pública as mesmas ferramentas tecnológicas das escolas privadas sem deixar de lado o compromisso com a alfabetização e a leitura

Como atualizar o ensino, inserindo robótica e cultura maker, sem perder o foco em competências fundamentais como alfabetização e leitura e ainda implantar uma política robusta de inclusão? A pergunta pode ser respondida por meio da experiência da rede municipal de educação da cidade de Erechim (RS), localizada a aproximadamente 370 km de Porto Alegre.

Com 6.973 estudantes e 874 professores, a educação infantil é praticamente toda em tempo integral. Já no ensino fundamental, há uma escola 100% integral e o Programa Castelinho, que oferece atividades de contraturno como karatê, xadrez, vôlei e inglês. 

 

Cidades

Estudantes com o produto final criado na aula de robótica (Foto: Divulgação)

 

Destaque nacional no último resultado (2025) do Indicador Criança Alfabetizada, Erechim atingiu 6,7, superando a média nacional de 6,6 e a estadual de 5,2. Chama a atenção que a nota de alfabetização de Erechim caiu em 2024 ao comparar com 2023. Entre as possíveis causas dessa queda está o impacto emocional com as enchentes no Rio Grande do Sul que, mesmo não atingindo o município, provocaram comoção local, analisa a secretária de Educação Verenice Lipsch, que é pedagoga e mestre em Educação.

A partir da nota insatisfatória de 2024, que foi de 4.6, a secretaria de Educação cria o Plano de Alfabetização do Sistema Municipal.  “Alfabetizar hoje é um desafio, pois as crianças já chegam ‘alfabetizadas digitalmente’. Nossa gestão foca na avaliação de resultados para identificar lacunas. Como gestor, também temos de dar suporte para que o professor não atue solitariamente”, explica Verenice. 

 

Cidade

Montagem de robô na aula de robótica (Foto: Divulgação)

Leia: Municípios têm até 31 de agosto para manter acesso a recursos complementares do Fundeb

 

Esse Plano de Alfabetização de Erechim se baseia em eixos como: formação continuada de professores; acompanhamento sistemático com simulados e avaliações diagnósticas; monitoramento turma a turma: análise dos dados de cada escola para intervenções específicas. Dá-se ainda autonomia aos diretores para alocar professores com o perfil adequado para o 1º e 2º anos. Há também projetos de leitura, como o ErechimCidade Que Lê, que oferece vales-livro para estudantes do 1º ao 9º ano na feira do livro; e a participação no programa Alfabetiza Tchê (em regime de colaboração com regiões do RS) junto ao Criança Alfabetizada do governo federal.

Decisão estratégica

Democratizar o acesso à tecnologia e oferecer aos alunos da rede pública as mesmas oportunidades da rede privada foi o motor que deu vida, em 2022, ao projeto Robótica Educacional. Focado nos jovens do 5º ao 9º ano da rede pública, o projeto tem parceria com o Senai e acontece semanalmente no contraturno.

Em vez de construir laboratórios individuais em cada escola, o que exigiria alto investimento financeiro, a prefeitura optou por levar os alunos de ônibus até a sede do Senai, oportunizando ainda um ambiente de aprendizado além do espaço escolar tradicional. “No Senai, os alunos utilizam uma sala maker e contam com a instrução de professores especializados que desenvolvem metodologias voltadas para a robótica. Além dedespertar o interesse pela tecnologia, a parceria permite que os jovens, especialmente os do 8º e 9º anos, tenham contato com o ambiente do Senai, visualizando perspectivas futuras como cursos profissionalizantes e o programa de jovem aprendiz”, explica a secretária.

Os jovens participam ainda de competições entre escolas municipais, estaduais e privadas. Erechim está organizando uma sala maker própria no ginásio municipal para que os alunos que se destaquem nesse projeto possam atuar como futuros instrutores e condutores.

 

Leia: Justiça social, a lógica por trás da redistribuição do novo Fundeb

 

Inclusão: acolhimento na prática

Como tem acontecido em diferentes regiões do país, o município também vive um aumento de estudantes neurodivergentes. Inclusive, a inclusão escolar é tratada como uma política específica de educação inclusiva que busca integrar estudantes com deficiência e neurodivergentes em turmas regulares, garante a secretária. Dos 6.973 alunos, 374 têm alguma deficiência e/ou neurodivergência. “Hoje todas as escolas têm turmas com laudos. O número [de neurodivergentes] tem aumentado expressivamente. Há dois anos tínhamos cerca de 120 estudantes nessas condições”, compartilha Verenice Lipsch, que garante que todos têm monitoria individual.

Cidade

O Plano de Alfabetização de Erechim e o Robótica Educacional são alguns dos destaques da rede, conta a gestora  Verenice Lipsch (Foto: Divulgação)

A rede escolar prioriza o acolhimento, tanto das crianças quanto de suas famílias, que muitas vezes enfrentam dificuldades em aceitar o diagnóstico. A secretária enfatiza que o objetivo não é apenas que o aluno acompanhe o currículo padrão, mas, sim, trabalhar nas potencialidades individuais de cada jovem. Já a socialização em sala de aula com os demais colegas é vista como o principal diferencial para a evolução desses alunos.

Olimpíadas

Verenice enxerga as olimpíadas de conhecimento como fundamentais para o estímulo do pensamento crítico e autonomia. “No início da gestão, divulgávamos pouco, mas, ao vermos os resultados e a competitividade sadia entre as escolas, o engajamento cresceu. Este ano, os vereadores fizeram uma menção honrosa para os alunos que se destacaram [na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, a OBMEP]. Para uma criança de bairro, ser reconhecida na Câmara de Vereadores muda a perspectiva de vida.”

Gestão do futuro

Equilíbrio emocional e liderança focada em pessoas são habilidades citadas pela secretária Verenice como fundamentais para a gestão do futuro (e do presente). Ela entende que o papel do gestor vai além do cumprimento estrito da legislação, o que exige a vontade de fazer o diferencial, observando a realidade local.

“A escola tornou-se um laboratório da sociedade; todos os problemas deságuam nela. Por isso, criamos por lei este ano a Rede de Apoio Escolar, envolvendo Conselho Tutelar, Saúde, Assistência Social, Brigada Militar e Promotoria. O professor não pode ser o único ‘salvador do mundo’; ele precisa focar na aprendizagem enquanto a rede cuida das demais demandas sociais”, finaliza a gestora.

 


Leia 323

1 produto final robótica erechim2-- (2)

Cidade faz a lição de casa

+ Mais Informações

Mapa do Site