NOTÍCIA
IA traz mudanças tecnológicas desafiadoras, mas também a oportunidade de dar mais espaço ao que é essencialmente humano
Não é novidade que vivemos tempos de transformações constantes. Inovações tecnológicas — como a inteligência artificial (IA) — avançam de forma acelerada, remodelando a sociedade e as relações humanas. A educação, claro, não escapa desse movimento, o que fomenta uma série de debates: como usar a tecnologia de forma eficiente no ensino? Como preparar crianças e jovens para um uso ético e consciente das ferramentas digitais? Quais os impactos da tecnologia na aprendizagem? E para a nossa saúde mental?
Essas são apenas algumas das perguntas que permeiam esse período de ebulição. Para a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, o que estamos vivendo é um momento de transição de mundos. “A mudança tecnológica desestruturou um mundo material e estruturou um novo mundo virtual”, analisa.
Se o mundo material tem regras muito bem-estabelecidas, ela destaca, o virtual está apenas começando a ser ordenado. “O mundo virtual, que é o mundo que a gente habita, é um mundo de desvínculos, e não de vínculos. É um mundo onde as coisas se arrebentam. É um mundo cruel, de conflitos.”

Viviane Mosé, psicanalista: Mudança tecnológica desestruturou
um mundo material e estruturou um novo mundo virtual (Foto: Nando Chagas)
O caminho, porém, deve ser rumo a uma adaptação. “Com o tempo, a gente vai aprender a lidar melhor com o mundo virtual. Vai estabelecer regras, controles, e a gente vai ter um pouco mais de tranquilidade psíquica”, diz a psicanalista.
Esse novo mundo, aliás, traz também mudanças radicais e necessárias. “Tudo o que está desabando no mundo, que está nos fazendo sofrer, porque está desabando, ao mesmo tempo é um alívio, é um livramento. O modelo anterior de mundo, a gente está acostumado com ele, então era mais tranquilo. Só que era um mundo de exclusão: de negros, de mulheres, de homossexuais, de pessoas com deficiência. Essas pessoas não tinham direitos. Hoje, é o mundo da diferença.”
No campo educacional, quando o assunto é tecnologia, sobretudo o uso da inteligência artificial, ainda há muitos questionamentos. Mas uma coisa é certa: esse movimento já começou. E a IA, se bem-utilizada, pode ser uma aliada do docente — já que pode apoiá-lo, e não substituir sua função.
“A inteligência artificial vai diminuir e substituir uma parte do trabalho do professor. Mas isso é um presente para professores, alunos e pais. Por quê? A inteligência artificial pode preparar minha prova, mas eu tenho que preparar a inteligência artificial para ela preparar minha prova”, explica Viviane.
Em resumo, a IA pode ser uma ferramenta que auxilia o trabalho docente, permitindo que ele ganhe tempo e se dedique a uma tarefa essencialmente humana e insubstituível: a conexão com os estudantes. “A sala de aula não é um espaço só para passar conteúdo; pelo contrário, é um espaço de troca, de conversa sobre o conteúdo. Então, a inteligência artificial fornece uma base e o bom professor transforma aquilo em afeto, em relacionamento, em vida.”
Se o professor tem mais tempo para se dedicar a essas funções humanas, pode haver, inclusive, um impacto positivo na sua própria saúde psíquica — bem como na dos alunos. E isso se conecta com um dos grandes temas da educação (e da sociedade como um todo) na contemporaneidade, que é justamente a saúde mental.
“Se o professor chega à sala de aula sem ter que ter virado a noite corrigindo prova, se ele chega tranquilo, disposto, ele vai se dar como pessoa. Aquilo vai ser um trabalho com que ele se identifica, em que ele se valoriza, em que ele é amado, em que ele troca afeto. Isso vai dar saúde psíquica não só para os alunos, mas aos professores”, avalia Viviane Mosé.
Para Elizabete Scheibmayr, matemática, bacharel em direito e sócia-fundadora da Uzoma – Diversidade, Educação e Cultura, o uso da IA e de outras tecnologias só faz sentido quando se pensa no coletivo. “As tecnologias servem como ferramenta para desenvolvimento de pessoas; elas não substituem pessoas”, afirma.

“Tecnologias servem como ferramenta para desenvolvimento de pessoas; elas não substituem pessoas”, afirma Elizabete
Scheibmayr, da Uzoma – Diversidade, Educação e Cultura (Foto: Nane Ferreira)
A especialista exemplifica: para jovens que vivem em comunidades mais afastadas, a tecnologia e a inovação podem trazer mais “amplitude do mundo e de conhecimento”. E mais: a partir desses novos olhares, podem surgir novas soluções para problemas locais.
“O jovem pode usar a tecnologia, a inteligência artificial, para resolver um problema da sua coletividade, do seu ambiente, do meio em que ele vive”, afirma. Como cada um parte de uma realidade diferente, pode contribuir com um novo olhar e, consequentemente, com soluções inovadoras.
Embora a tecnologia transforme a educação, há também aquilo que não se modifica: a escola segue com o importante papel de ser um lugar de acolhimento e que promove a relação respeitosa com o outro. “Quando a gente pensa em educação, a gente pensa em um lugar onde as pessoas se sintam pertencentes, e que aquela escola faça sentido para quem está participando”, enfatiza Elizabete.
Isso significa, por exemplo, conectar-se com o território. “Então, quando eu for pensar no conteúdo pedagógico, em conteúdo para levar para a escola, eu preciso olhar para as questões individuais de cada região.”
Outro ponto importante é o respeito à diversidade. Como a escola é um reflexo da sociedade, muitas vezes, pode reproduzir problemas como homofobia, racismo e machismo. E é fundamental que a educação cumpra o papel de combater esse tipo de discurso.
“É na escola que você consegue criar um ambiente onde você pode ter uma discussão sobre temas que talvez não teria em casa. Então, como eu levo para a escola temas que são estruturais e que precisam ser conversados? É preciso ter uma adaptação de linguagem, com uma linguagem que permita se conectar com o jovem e que ele possa entender”, analisa Elizabete.
“O segundo ponto é nominar as coisas. O que é preconceito? O que é homofobia? O que é racismo? O que é questão de gênero? Nominar e trazer conhecimento com mais profundidade.”

A Bett convida o setor a superar a falsa oposição
entre humano e tecnologia, instiga a diretora de conteúdo do evento, Adriana Martinelli (Foto: Divulgação)
Viviane Mosé e Elizabete Scheibmayr participarão da Bett Brasil 2026, evento que acontece em São Paulo (SP). Enquanto Viviane ministrará uma palestra em 7 de maio, às 17h, na sala de aula invertida, Elizabete estará num painel em 8 de maio, às 13h, na plenária.
Neste ano, a Bett Brasil tem, como tema central, Inteligências individuais, coletivas e artificiais: todas em nós, agora! Quando elas dialogam, a educação se transforma. O debate irá abordar a importância do equilíbrio entre a inteligência humana e a artificial.
Segundo Adriana Martinelli, diretora de conteúdo do evento, a ideia é aprofundar a reflexão iniciada na edição de 2025, que focou a discussão do papel da educação diante das crises contemporâneas e na construção de futuros regenerativos.
“Mais do que um tema, trata-se de um alerta. Vivemos uma virada histórica: nunca tivemos tanta tecnologia disponível e, ao mesmo tempo, tantos desafios humanos e sociais. A Bett convida o setor a superar a falsa oposição entre humano e tecnologia. O desafio central é desenvolver inteligência humana — crítica, ética e relacional — em um mundo atravessado pela IA, aprendendo a integrar essas dimensões com responsabilidade”, afirma a diretora.
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