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Opinião

Autor

Revista Educação

Publicado em 03/03/2026

O CNE avança para regular a IA nas escolas, mas será que estamos preparados?

A discussão sobre as regras da IA deveria, obrigatoriamente, vir acompanhada de uma política nacional robusta e contínua de formação para os professores em exercício

Por Beatriz Bonadiman* | O avanço das discussões no Conselho Nacional de Educação (CNE) para regulamentar o uso da inteligência artificial (IA) na educação é um passo necessário e aguardado. A expectativa é que as diretrizes, que podem ser votadas já em março, tragam um norte para instituições de ensino que hoje se dividem entre a proibição e o uso irrestrito de tecnologias como o ChatGPT. Contudo, ao focar nas regras, corremos o risco de ignorar o alicerce para que qualquer norma funcione na prática: a formação docente.

Regular é fundamental, mas não é, nem de longe, suficiente. O próprio texto oficial do CNE acerta ao propor que os cursos de formação de professores, como as licenciaturas, incluam disciplinas sobre o uso pedagógico da IA, uma orientação que, vale lembrar, já havia sido sinalizada em 2025. A intenção é correta, mas peca pela visão de longo prazo, ignorando a realidade imediata. De que adianta preparar os futuros professores se não existe nenhuma política nacional efetiva para capacitar os milhões que já estão em sala de aula hoje?

O desafio é imenso e urgente. Como podemos esperar que os educadores cumpram uma nova e complexa regulamentação se muitos ainda não sabem configurar a proteção de dados em plataformas de IA, elaborar prompts eficazes para fins pedagógicos, ou mesmo identificar quais ferramentas são confiáveis para o ambiente escolar? Questões básicas sobre o que são dados sensíveis e como funciona a anonimização de informações ainda são nebulosas para boa parte do corpo docente. Sem o domínio desses conceitos, a regulamentação se torna uma mera formalidade.

 

Beatriz Bonadiman – Conheça o trabalho da autora

 

Por isso, a discussão sobre as regras da IA deveria, obrigatoriamente, vir acompanhada de uma política nacional robusta e contínua de formação para os professores em exercício. Não se trata de oferecer cursos rápidos e genéricos, como os que já existem em plataformas governamentais e que, além de desatualizados, tiveram baixa adesão. A capacitação necessária é profunda, estruturada e permanentemente atualizada, pois a tecnologia evolui em uma velocidade que nenhum curso pontual consegue acompanhar.

Beatriz Bonadiman

Beatriz Bonadiman (foto: divulgação)

Precisamos de uma formação que vá além do “como usar” e se aprofunde no “porquê usar”, desenvolvendo competência pedagógica para integrar a IA de maneira crítica e criativa. É preciso gerar autonomia profissional para que o professor não seja um mero aplicador de ferramentas, mas um curador de tecnologias, capaz de adaptá-las à realidade de sua sala de aula.

 

Leia também: IA na educação – impactos do Marco Legal e da LGPD

 

Criar regras sobre o uso de inteligência artificial sem garantir que os professores saibam como aplicá-las é, na prática, produzir uma legislação impossível de ser cumprida. No fim, uma regulamentação sem uma formação massiva e imediata não orienta; apenas transfere a responsabilidade para o educador, que nunca foi devidamente preparado para assumi-la.

*Este conteúdo é apresentado por Beatriz Bonadiman, especialista em IA pelo MIT e autora da metodologia e do livro IAtiva.


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