NOTÍCIA
Jornada do vestibulando deve ser compartilhada com diálogo, honestidade e realismo
Por Erik Hörner* para a Academia Líderes de Educação | Quando um curso como medicina reúne 90,7 candidatos para cada vaga na Fuvest 2026, o vestibular deixa claro que não se trata apenas de uma prova, mas de um processo altamente competitivo e emocionalmente exigente.
Psicologia também está entre os cursos mais disputados, com até 58,6 candidatos por vaga, seguida por Relações Internacionais, com 37,9. Esses números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado por milhares de jovens todos os anos e explicam por que esse período costuma gerar tanta ansiedade dentro de casa.
Para os estudantes, o vestibular concentra expectativas acumuladas ao longo da vida escolar; para as famílias, surgem dúvidas sobre como e até onde apoiar. Especialmente quando o filho manifesta o desejo de seguir carreiras de altíssima concorrência em universidades públicas, é natural que apareçam questionamentos: deve haver cobrança? Como equilibrar incentivo e pressão? E como lidar quando o resultado não vem?
A primeira compreensão necessária é que o vestibular não se limita à véspera da prova. Ele é o capítulo final de uma longa trajetória, construída desde o início da vida escolar. Assim como ninguém decide correr uma maratona a dois dias da prova, também não é realista imaginar que a preparação para uma seleção concorrida aconteça apenas nos últimos anos do ensino médio. Para se ter um bom desempenho — que não significa vencer, mas estar entre os melhores dentro daspróprias condições — é preciso treino, constância, conhecimento do percurso, rotina adequada, descanso, sono e escolhas responsáveis ao longo dos anos.
Com isso, o papel dos pais não é fazer pressão para que o filho “passe”, mas construir, desde cedo, um ambiente que tenha comprometimento e responsabilidade. É preciso que as famílias comuniquem com clareza que cada escolha gera consequências: se o jovem almeja uma carreira altamente competitiva, precisará ajustar a rotina, equilibrar lazer e estudo, revisar prioridades e encarar com seriedade o caminho. Esse diálogo deve existir antes da reta final, idealmente desde o ensino fundamental, de maneira coerente, constante e sem drama.
Isso não significa depositar no adolescente um peso insuportável, mas reconhecer que não é possível viver a trajetória por ele. Os pais devem apoiar, orientar, ajudar a organizar a rotina, alertar para exageros ou desequilíbrios, porém, não podem substituir o esforço pessoal, nem “viver a vida dos filhos” ou impor sobre eles uma pressão tão acentuada que por si só já torna o caminho mais difícil. A responsabilidade precisa ser dos filhos, e isso também ajuda na construção da autonomia e da maturidade necessárias para a vida adulta.
Outro ponto essencial é lidar com a possibilidade, sempre real, do fracasso e da falha. Falar sobre isso não aumenta a ansiedade, pelo contrário, torna o processo mais honesto. Um resultado negativo não elimina anos de estudo e nem define quem o jovem é. Em muitos casos, caminhos alternativos podem ser mais adequados e até mais saudáveis. Um novo ciclo de preparação, um período estudando no exterior, trabalho voluntário, cursos livres ou mesmo uma reavaliação sincera do projeto de carreira. O que não ajuda é a ideia do “ano sabático” como pausa total, sem direcionamento. Adolescentes precisam de objetivos, de uma busca ativa, de experiências que alimentem reflexão, e não de mera espera por inspiração.
Também é preciso que as famílias estejam atentas a sinais de sofrimento emocional. Caso ansiedade, exaustão ou tristeza se tornem constantes, buscar apoio especializado é indispensável. A pressão dos vestibulares no Brasil é real, e reconhecer limites é parte do cuidado. Não é à toa que cerca de 3,5 milhões de pessoas participaram da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
A melhor contribuição dos pais é manter, ao longo de toda a formação escolar, um olhar equilibrado, mas sem romantizar o percurso nem transformar o caminho em um campo de batalha. É preciso apoiar sem pressionar, orientar sem decidir e acolher sem eliminar a responsabilidade do jovem. No fim das contas, a prova carrega somente o nome do vestibulando, mas a jornada pode (e deve) ser compartilhada com diálogo, honestidade e realismo.
Se tudo der certo e o resultado sair como o esperado, ótimo. E se tudo não ocorrer como estava previsto, um novo caminho em busca de um resultado diferente terá começado.
*Erik Hörner é diretor pedagógico e administrativo do Colégio Humboldt. Profissional com ampla experiência na educação básica, vem consolidando sua trajetória na docência e na gestão educacional há mais de 15 anos.
Este artigo foi originalmente publicado na Academia Líderes de Educação, iniciativa exclusiva e gratuita da revista Educação para fortalecer a liderança escolar e impulsionar transformações na gestão educacional. Saiba como se tornar membro.
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