NOTÍCIA

Edição 318

Autor

Rubem Barros

Publicado em 26/01/2026

A literatura negra passa por ele

Enquanto prepara um livro com suas memórias, o autor de "O carro do êxito" se prepara para as homenagens aos seus 90 anos, em outubro próximo

A vida de Oswaldo de Camargo — poeta, escritor, jornalista e crítico literário — condensa as experiências do negro brasileiro dos séculos 20 e 21, ao mesmo tempo que também que é uma trajetória única. Nascido em família pobre no interior de São Paulo, morou com os pais em fazenda de café, depois na cidade de Bragança Paulista, mas os viu morrer cedo. Órfão aos sete anos, viveu em instituições religiosas que lhe propiciaram formação e contato com a cultura. Ali conheceu a leitura, o teatro, a música, elementos que constituíram sua experiência de vida, ao lado do forte sentimento religioso e de pertença à condição de negro brasileiro.

Apesar da experiência no seminário, as portas para sua ambição de se tornar padre foram fechadas por causa da cor. Deprimiu-se, veio para São Paulo, foi amparado pela madrinha e, em função do seu gosto pela literatura, conseguiu um emprego como revisor em O Estado de S.Paulo. Na capital, logo aproximou-se da Associação Cultural do Negro, que publicou seu segundo livro, 15 poemas negros (1961), prefaciado pelo sociólogo Florestan Fernandes. O primeiro, Um homem tenta ser anjo, também de poemas, havia sido publicado, dois anos antes.

 

Leia: O valor da literatura negra na educação antirracista

 

Neste momento em que se aproximam seus 90 anos (em 24 de outubro de 2026), começam a pipocar as homenagens e sua obra tem sido valorizada, como na última Feira do Livro da Penha. Seu principal livro, O carro do êxito, foi reeditado pela Companhia das Letras por ocasião de seu cinquentenário. Lançada em 1972 pela Livraria Martins Editora, a obra é um marco do movimento de literatura negra no Brasil. A partir dela, os coletivos de autores negros e suas publicações começaram a ganhar corpo, como os Cadernos Negros e o Grupo Quilombhoje, ambos com a participação de Camargo, ao lado de nomes expressivos como Cuti (Luiz Silva) e Paulo Colina.

Esses movimentos abriram as portas para muitos outros. Admirador de Jeferson Tenório e Conceição Evaristo, Camargo diz, no entanto, que a convivência com intelectuais diversos foi muito importante. “O mundo é uma mistura, uma mistura de autores. Não dá para fazer uma literatura só com conteúdo negrista. Não existe só o negro sozinho.” Leia, a seguir, a entrevista exclusiva.

 

Como o senhor descreveria seu lugar na literatura brasileira?

Eu me considero, e a gente pode ver isso em alguns dos meus contos, como Maralinga, Genoveva e Plebeia, este um pouco mais longo, quase uma noveleta, um escritor afro-caipira. Tenho muita influência da área rural. Meu pai era apanhador de café em uma fazenda, a Sinhazinha Félix, em Bragança Paulista que chegou a ter, no final do século 19, 300 mil pés de café. Nasci a uns 500 metros do casarão da fazenda, ou seja, perto da opulência, de muita riqueza, e nunca entrei naquele casarão. Estávamos todos abaixo da pobreza.

Quando nasci, minha mãe já tinha perdido um filho, o Moacir, cujo nome quer dizer ‘filho da dor’. Depois vim eu, Osvaldo. O terceiro era o Roberto. Depois, Anésia. Moacir e Anésia morreram. O fato de eu ser o segundo filho me deu um certo privilégio, minha mãe teve um cuidado grande comigo porque já tinha perdido uma criança.

 

Muito cedo, houve uma virada na sua vida.

Quando minha mãe morreu, minha madrinha foi a Bragança colocar nossa vida em dia, porque meu pai, depois de perder um braço, tinha se tornado alcoólatra. Era uma vida muito miserável, mas a madrinha nos internou — a mim e aos meus irmãos, no Preventório Imaculada Conceição. Foi a guinada da minha vida: ali, fui alfabetizado, aprendi a escrever, ouvi música erudita, aprendi canto gregoriano. Canto alguma coisa em latim até hoje.

 

E o cotidiano, como foi essa mudança de vida?

Fiquei três anos sem sair dali. Todas as crianças que entravam ali ficavam três anos internadas sem ir para casa.

 

E quando surge a literatura em sua vida?

Na minha infância, o meu começo literário é a literatura oral. Quando a caipirada vinha da fazenda para a Vila São Vicente, vinham bater papo, prosear, contar causos. Minha mãe ainda estava viva, fazia pipoca. Lá se cantava, se contavam casos de assombração, lobisomem, mula sem cabeça. Minha imaginação foi ativada pelos causos contados por caipiras. Quando comecei a ler, depois da morte da minha mãe, o primeiro livro que li, já no Preventório, foi de Monteiro Lobato. Da literatura oral que ouvi com os caipiras, passei à literatura formal de Monteiro Lobato.

 

Além da marca rural, muito forte na sua literatura, quais foram suas outras influências?

Elegi alguns autores como modelo, como o Fernando Sabino. Li três vezes o Encontro Marcado (1956); um romance de um grande escritor, pouco lido, Adonias Filho, que escreveu Memórias de Lázaro (1952), e tem a poesia também. Minha construção de frase tem muito a ver com a poesia. Geralmente, o proseador tem como primeiro aprendizado o verso, mesmo muitos que não dizem que tentaram. O verso é que vai dar a cadência. Eu tenho batido nessa tecla, me considero afro-caipira. E, no início, a literatura oral me robusteceu a imaginação, como nos contos que já mencionei.

 

O carro do êxito (1972) é um livro de grande importância na sua carreira. Como foi recebido na época? 

Oswaldo por Rafael Barros

Oswaldo vivenciou primeiro a literatura oral. Já a formal veio com Monteiro Lobato (foto: Rafael Barros)

Foi fundamental. Com ele, eu estava abrindo, digo até com uma certa vaidade, um espaço para a literatura que hoje chamamos de literatura negra, a literatura escrita por negros. O carro do êxito foi a primeira vez em que se viu um autor negro tratando desse mundo que em alguns aspectos até hoje é um mundo um tanto particular, olhando as suas experiências, a sua vivência, o seu entorno com brancos e negros, escrevendo ficção. Hoje, autores como a Neide Almeida, o Abelardo Rodrigues e o Paulo Colina, entre outros, compõem um mundo intelectual que cuida de algo que o Brasil nunca ligou muito, a questão literária do negro. E que nós criamos a partir do nonagésimo verso do Luiz Gama [no poema Quem sou eu?]: “Se negro sou ou sou bode, pouco importa, o que isso pode?”

É aí que começa esse interesse pelo eu negro. O que caracteriza essa literatura que chamamos de negra é o eu. Você pega a sua vida, as suas experiências, as suas alegrias, e tece uma literatura geralmente ficcional em torno disso. Poesia também. Um grande exemplo é o Solano Trindade. “Não disciplinarei as minhas emoções estéticas/deixá-las-ei à vontade/como o meu desejo de viver…/É grande o espaço/embora se criem limites…/Basta somente/que eu sofra a disciplina da vida/Mas a estética/deve ser sempre liberta [Estética, do livro Cantares ao meu povo, 1961].

Até então, quase tudo o que se fazia referente ao negro era a poesia. Leno Guedes, Solano Trindade, e mesmo na Associação Cultural do Negro o que havia era a poesia de Carlos de Assumpção, tudo em verso, geralmente metrificada, a poesia sonora, com nítida influência do Castro Alves, do Casimiro de Abreu. São leituras pré-modernas.

 

A Associação Cultural do Negro teve uma importância muito grande?

Quando você ligava a palavra negro à cultura, opa! Conte comigo! Em geral, o negro estava ligado a samba, às religiões africanas, ao candomblé, comidas típicas. Eu saí do seminário em 1954. Vi o anúncio de um baile e o nome do local, Associação Cultural do Negro, me chamou atenção, nunca tinha imaginado essa possibilidade. Fui atrás de imediato. A Associação tinha recitação de poesia, palestras, era uma oportunidade de subir na vida pela cultura. Havia bastante gente branca também, em geral pessoas de esquerda, como Florestan Fernandes e outros.

 

Quando foi recusado no seminário, aos 18 anos, o que o senhor fez?

Vim morar em São Paulo, com a minha madrinha, a prima Maria José e meu irmão Roberto, todos em um quarto só.

 

E como a situação mudou?

Escrevi um soneto, tomei coragem e pedi para a minha madrinha entregar para o dr. Francisco Mesquita, diretor de O Estado de S.Paulo. Ele mostrou para o filho, Luís Mesquita. Um dia, perguntei a Luís Mesquita se havia possibilidade de eu trabalhar no jornal. Por causa do soneto, ele falou: “ah, você é intelectual, né?”. Disse para eu prestar o teste na revisão. Fiz e passei. Eu ia fazer 19 anos. Foi um trabalho que propiciou mudarmos para um lugar um pouco melhor.

 

E os cadernos negros, como nasceram?

Eu trabalhava no Estadão e já tinha publicado o livro O Homem que queria ser anjo. Eram pouquíssimos os autores negros publicados, e eu tinha um certo nome, por ter um livro publicado com prefácio do Florestan Fernandes. Quando alguém queria encontrar-se comigo, ia ao Mutamba, um bar na Major Quedinho, embaixo do jornal.

Então, o pessoal foi se congregando e pouco tempo depois tinha um grupinho. Paulo Colina era um grande amigo meu, aí apareceu Abelardo e começamos a nos reunir. Isso tornou-se hábito. Saía do Estadão e ia ao Mutamba conversar sobre literatura. Daí surgiu a ideia formal dos Cadernos Negros, um sintoma de que estavam surgindo autores negros. Se não me engano, o Cuti [o poeta e ensaísta Luís Silva] foi quem teve a ideia de fazer os cadernos. Fizemos um caderno pequeninho com oito autores. Estavam o Eduardo de Oliveira, Aristêmio Barbosa, eu, o Cuti. Entre as mulheres, Ângela Galvão. Ainda tenho o primeiro número, hoje vendido a preço de ouro.

Com tudo isso, havia uma frequência maior entre Rio de Janeiro e São Paulo. De vez em quando algum autor, como o Éle Semog [Luiz Carlos Amaral Gomes] vinha do Rio de Janeiro para conversar. Esse coletivo começou a fazer uma edição a cada ano. Em breve vai chegar a 50 [2028].

 

E o Quilombhoje, como foi sua história?

Era um grupo de autores para discutir, propagar, divulgar, cultuar autores negros.

 

Pensando na sua experiência como pai, qual é a sua visão da educação hoje?

As pessoas são diferentes. O que você se dá a um, não tem o mesmo resultado para o outro. Mesma coisa os filhos. Não tenho nenhum filho que se voltou para a escrita literária, que seguiu meu caminho. Isso é natural. O fundamental para a minha família foi ter uma casa própria. A base é a casa própria. Foram educados aqui o tempo todo. Isso dá segurança. A pessoa cresce num ambiente onde todo mundo sabe quem ela é, tudo que acontece. Outra coisa fundamental foi que todos foram criados numa religião, tiveram normas religiosas para seguir o caminho. E tiveram o privilégio de ter um pai que tem muitos livros. Meu filho músico, Marcos Munrimbau, sempre reconhece isso. Eles ouviam coisas selecionadas de MPB, Milton Nascimento, Chico Buarque, Gil, além de música erudita, ouviram muito Bach, Haendel quando eram pequenos.

 

E a vida escolar?

Ah, isso foi regular, fizeram primário, secundário, faculdade. Todos acharam um rumo graças à educação e ao conhecimento que receberam aqui. Nem toda família tem esse conhecimento, de ouvir música erudita, MPB. Tiveram uma boa formação em casa, que foi uma escola para eles, para a música, para a literatura, pelos intelectuais que frequentavam.

 

O [poeta, tradutor, jornalista e crítico literário] Sérgio Milliet era seu amigo?

Foi muito meu amigo. No tempo do Paribar [bar paulistano na Praça Dom José Gaspar, atrás da Biblioteca Mário de Andrade, entre os anos 50 e 70]. Eu tinha a ousadia, nos meus 22 anos, de ir perturbar o almoço dele no Paribar, para mostrar poesias minhas. Ele, todo paciente, levantava a cabeça e dizia: “olha, se eu fosse você, eu mudava esse verso aqui”.

 

Leia: O papel das vozes negras na literatura infantojuvenil

 

Intelectuais como Sérgio Milliet, Florestan Fernandes, Lígia Fagundes Teles, Hilda Hilst, Guilherme de Almeida, com todos eles eu tive contato. Ao mesmo tempo que estava na Associação Cultural do Negro, também estive com esses intelectuais brancos. Para mim isso foi fundamental. Acho importante, porque há autores negros que se fecham apenas naquela realidade negra, como se o mundo fosse só aquilo. E não é. O mundo é uma mistura, uma mistura de autores. Não dá para fazer uma literatura só com conteúdo negrista. Não existe só o negro sozinho.

 

E quais dos autores atuais chamam a sua atenção?

Jeferson Tenório é um belo autor, bem ousado no estilo, na temática. E também estou lendo mulheres. Conceição Evaristo é uma ótima escritora. Houve uma evolução, estão aparecendo criadores homens e mulheres. Mas tem uma coisa: entre um livro novo e um antigo, leiam um antigo. Me perguntaram o que estou lendo. Estou lendo muito pouco gente de fora, porque com todo trabalho que estou tendo na tentativa de escrever minhas memórias, não posso ficar a par de tudo que está acontecendo.

 


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