Entenda a importância de levar o oceano para a sala de aula
Publicado em 03/04/2026
A cultura oceânica aliada à educação Montessoriana pode educar para a paz e ajudar crianças a compreenderem a complexidade do mundo
Por Ana Vitória Tereza de Magalhães*| Em 2023, encontrei um livro em uma pequena livraria de uma rua estreita em Treviso, no norte da Itália, que mudaria profundamente a forma como compreendo a educação. Naquele momento, eu vivia no país e trabalhava com a Unesco, coordenando uma rede global de Escolas Azuis, ou escolas conectadas ao oceano. O livro reunia reflexões de Maria Montessori sobre educação e paz.
Para quem ainda não conhece sua trajetória: Montessori foi médica e pedagoga, dedicando mais de 50 anos à educação, desde o final do século XIX até sua morte, em 1952. Durante o avanço do fascismo na Europa, teve suas escolas fechadas e foi forçada a deixar a Itália.
No exílio, primeiro na Holanda e depois na Índia, desenvolveu ideias que permanecem profundamente atuais. Foi nesse contexto que consolidou a chamada “Educação Cósmica”: a compreensão de que tudo está interligado e que educar é ajudar a criança a encontrar seu lugar no mundo com responsabilidade e consciência.
Essas reflexões, atravessadas por sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial, ecoam de forma inquietante ainda em 2026. Nas últimas semanas, vimos escolas sendo atingidas por bombardeios em diferentes regiões do mundo, especialmente no Oriente Médio: Palestina, Líbano e no Irã. Crianças que deveriam aprender sobre o mundo estão lidando com medo e perda. A escola, que deveria ser um espaço de proteção, transforma-se em um ambiente de incerteza.
Prática urgente
Mesmo distantes desses conflitos, no Brasil, nossos alunos não estão isolados dessa realidade. Eles consomem conteúdos, escutam notícias e perguntam. Chegam à sala de aula atravessados por imagens, ideias e dúvidas. É nesse contexto que a educação para a paz deixa de ser um ideal e passa a ser uma prática urgente.
Montessori já nos alertava: a paz não se ensina como um conteúdo , ela se constrói nas relações, no cotidiano, na forma como organizamos o ambiente, conduzimos conflitos e conectamos os alunos ao mundo. E talvez um dos caminhos mais práticos para professores brasileiros esteja justamente na aproximação entre educação para a paz e cultura oceânica.
Na diplomacia, isso tem até nome: ocean peacebuilding ou construção da paz através do oceano. Trata-se do uso da cooperação científica marinha, da gestão sustentável dos recursos marinhos e de esforços de conservação para antecipar e prevenir conflitos, fortalecendo a confiança entre as nações. Ao mesmo tempo, o oceano é o berço de muitas soluções para problemas terrestres, e a cooperação oceânica reduz o risco e a frequência de conflitos internacionais.

Educar para a paz, hoje, é ajudar crianças a compreenderem a complexidade do mundo sem naturalizar a violência como resposta (foto: freepik)
Mesmo em regiões marcadas por tensões geopolíticas agudas, a ciência oceânica funciona como um canal diplomático vital, mantendo o diálogo vivo, promovendo a sensação de prosperidade compartilhada e mostrando que a perda ecológica é um custo que todos pagam, lição que se aprende também em sala de aula.
Essa lógica pode ser adaptada à educação. Não são necessárias grandes estruturas, mas intencionalidade. Tudo pode começar com uma conversa conectada ao mundo, a Educação Cósmica. Ao abordar temas globais, o professor pode incluir o oceano como elo entre os territórios. Um mapa na parede, conectando regiões em conflito pelos mares, ajuda os alunos a visualizarem o planeta como um sistema integrado.
Perguntas como “o que acontece em um lugar pode afetar outro?” abrem espaço para discutir empatia, migração, desigualdade e interdependência. Também auxiliam os alunos a entender que intolerância, preconceito e conflitos estão interligados e que a empatia é parte da solução.
Projetos ambientais se tornam experiências concretas de construção da paz. Trabalhar temas como lixo no mar, mudanças climáticas ou conservação marinha cria oportunidades para que os alunos investiguem juntos, escutem diferentes perspectivas e construam soluções em grupo. Nesse processo, aprendem algo essencial: problemas complexos não se resolvem sozinhos, e muito menos com violência. Aprende-se ciência, mas também convivência. E, sem paz, não há ciência possível.
Por fim, há o cotidiano, talvez o mais poderoso de todos os espaços. A forma como um conflito é mediado, como a fala de um aluno é acolhida ou como o respeito é cultivado dentro da sala de aula já é, em si, educação para a paz. Trazer o oceano para esse campo pode ser interessante: falar de equilíbrio, ciclos, limites e interdependência. Assim como no ambiente marinho, a harmonia depende das relações.
Educar para a paz, hoje, é ajudar crianças a compreenderem a complexidade do mundo sem naturalizar a violência como resposta. É oferecer ferramentas para que pensem, sintam e ajam de outra forma.
Se a guerra rompe vínculos e destrói futuros, a escola , mesmo em contextos distantes , pode ser um dos poucos lugares onde se constrói o contrário: cooperação e esperança. E talvez seja nesse gesto cotidiano, quase invisível, de cada professor brasileiro, que a paz começa, de fato, a tomar forma.

*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul.