NOTÍCIA

Formação docente

Autor

Sandra Seabra Moreira

Publicado em 27/03/2026

Universidade e escola básica, aproximação fundamental

A formação de professores é tarefa da universidade, mas como em qualquer profissão a prática na escola básica é crucial

A valorização da carreira docente é urgente. Um passo antes é a formação profissional de qualidade, responsabilidade da faculdade ou universidade. Mas não só delas. A prática, como em qualquer profissão, é crucial na formação docente, afinal, é na sala de aula da escola básica que os estudantes de pedagogia e das licenciaturas se tornam professores e professoras.

Distanciamento entre universidade e escola, burocratização dos estágios, foco em carga horária são desafios que podem travar o aprendizado e a reflexão. As políticas públicas tentam alavancar o início dessa virada. A avaliação das competências pedagógicas foi a novidade do Enade Licenciaturas, instituído em 2024 pelo Inep/MEC. Além da Prova Nacional Docente, os estudantes passam pela avaliação prática. O projeto está em fase de testes.

“O aluno precisa construir uma sequência didática e aplicar na escola. Um professor da escola ou supervisor de estágio entra no sistema do Enade e faz a avaliação”, relata Luis Paulo Martins, diretor da Faculdade Sesi de Educação, SP. Para ele, a avaliação da prática realizada desta maneira fortalecerá a relação da universidade com as escolas.

No âmbito do Programa Mais Professores, criado em 2025, o Pé-de-Meia Licenciaturas pode contribuir para estágios bem-sucedidos ao conceder bolsa mensal de 1.050 reais a estudantes de baixa renda e que tenham alcançado 650 pontos no Enem. O benefício vale para os que ingressam em cursos presenciais. A presencialidade também é prevalente na Nova Política de Educação a Distância, também instituída no ano passado.

 

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Despreparo

Novos cursos 100% a distância de licenciaturas e pedagogia estão proibidos, mas os estudantes que já estavam em curso podem terminar a formação nessa modalidade. No distrito industrial a 5 km da sede do município de Três Cachoeiras, cidade gaúcha com 11 mil habitantes, está a Escola Estadual de Ensino Fundamental Dom José Baréa, com 130 estudantes em horário integral. Lá, a diretora Maura Raulino atua há 30 anos e a vice-diretora, Julci Machado, há 25. A dupla tem participado da formação de mais de uma centena de estagiários.

Elas são egressas da Ulbra, a Universidade Luterana do Brasil, que tem um campus em Torres, a 30 km de Três Cachoeiras. Os cursos presenciais de licenciatura desta universidade eram tradicionais na região, mas acabaram. As gestoras contam que o número de alunos dos cursos presenciais foi diminuindo e houve a migração para o EAD.

Universidade e escola básica

Maura Raulino e Julci Machado, de Três Cachoeiras (RS) constatam o despreparo dos estudantes e egressos dos cursos EAD (foto: divulgação)

“Há pelo menos quatro anos não recebemos estagiários de cursos presenciais. A diferença é grande. A qualidade caiu, o despreparo é total, desde a apresentação”, lamenta a diretora Maura. Estagiários de licenciaturas EAD ficam pouco tempo na escola, estão ali para ‘cumprir tarefa’, pois os estágios são muito direcionados, e não conseguem participar do andamento do projeto da escola, alegam as gestoras. Além disso, não há mais a presença do coordenador de estágio, que no tempo dos cursos presenciais acompanhava os estudantes.

As comparações são inevitáveis. Por exemplo, entre os estagiários do Instituto de Educação Maria Angelina Maggi, também em Três Cachoeiras, ‘há os que chegam mais bem preparados do que os egressos do EAD’. A instituição oferece o que as gestoras chamam de ‘normal médio’. Para poder atuar na educação infantil e anos iniciais do fundamental, ao final do ensino médio, os estudantes precisam do estágio. 

 

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Geralmente, os estagiários são ex-alunos da escola. “Eles saem daqui no 9º ano, fazem o normal médio e voltam para estagiar. Para nós é uma alegria”, relatam as gestoras. Estagiários de graduações presenciais, como os de psicologia e fisioterapia, costumam ser mais interessados.

Experiências

O estudante que opta por psicologia escolar pode fazer até três estágios em escola básica. “Temos, por exemplo, a reunião de formação e estudo às quartas à tarde e a Julci sempre tenta que o estagiário participe. O estagiário de psicologia acaba se incorporando ao nosso trabalho pedagógico. Isso é muito rico”, afirma Maura. “Soma muito. Já teve estagiário de psicologia que ficou dois anos na escola” conta Julci.

Cinco estagiárias do curso de fisioterapia da Ulbra estiveram na escola e participaram das reuniões semanais, sempre acompanhadas da coordenadora de estágios da universidade. Julci explica: “Primeiro, fizeram pesquisas com o grupo, viram as necessidades, depois aplicaram técnicas de relaxamento nos professores e servidores. O grupo adorou e pediu que elas voltassem. A gente viu que para elas foi um estágio produtivo e para nós também”.

Professores egressos do EAD, que chegam à escola por meio de contrato emergencial com o estado, portanto, sem concurso público, apresentam dificuldades similares às dos estagiários. Para Julci, “falta a eles o dia a dia na universidade, o trabalho em grupo, a troca com o professor. Não têm a troca humanizadora da sala de aula”.

As dificuldades, entretanto, não esmorecem as gestoras. “Nosso projeto político-pedagógico foi construído com a comunidade, quando implantamos o período integral em 2017, então, a meta é sempre acolher todo mundo. Entendemos que todos vêm em condição de somar, de contribuir com o projeto, e procuramos dar toda a assessoria de que precisam”, finaliza Maura.

 

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Congresso de Formação de estagiários

“O estágio é uma experiência de relações do estudante com o planejamento da escola e com a instituição. Mas é na relação com o professor e os alunos que o estagiário aprende de verdade. Todo o resto vai dando sustentação”, afirma Ana Cristina Dunker, diretora da Carandá Educação, na capital paulista. A escola recebe pouco mais de 50 estagiários por ano, de pedagogia, licenciaturas, psicologia e algumas carreiras administrativas.

Universidade e escola básica

“O estágio é oportunidade para o estudante vivenciar a prática, refletir sobre ela e construir sua identidade docente”, diz Ana Cristina Dunker da escola Carandá (foto: divulgação)

A maioria vem das graduações presenciais. Na Carandá, o estágio é concebido como espaço de formação e pesquisa, é oportunidade para o estudante vivenciar a prática, refletir sobre ela e construir sua identidade docente. Desde 2013, a escola realiza, ao final do ano letivo, o Congresso de Formação de Estagiários, em que por meio de painéis ou apresentações orais os estagiários abordam os projetos de pesquisa desenvolvidos em sala ou reflexões sobre seus processos de ensino e aprendizagem.

Os trabalhos são elaborados sob a orientação de professores regentes e coordenadores pedagógicos. Aberto e gratuito, o encontro recebe um público de cerca de 130 pessoas, entre familiares, gestores de outras instituições, pesquisadores e aspirantes ao estágio.

O Centro de Estudos da Carandá oferece curso específico de formação de estagiários, presencial e online, para os que quiserem se aprofundar. Há previsão de ampliação para estagiários do grupo OEP, criado em 2025 e que reúne cinco escolas particulares de SP, entre elas, a Carandá.

Residência educacional

A Faculdade Sesi de Educação é gratuita e os cursos de pedagogia e licenciaturas são em tempo integral. As aulas são no período noturno e há ênfase na prática, ou seja, a residência educacional é praticamente o coração do curso, abarca os estágios, e acontece à tarde.

 

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Desde o primeiro semestre, os estudantes cumprem 10 horas de estágio por semana e mais duas horas de reunião com os supervisores. Já na atribuição de aulas, os professores assumem grupos de estudantes para acompanhar seus estágios. Num programa similar ao Pé-de-Meia Licenciaturas, alunos de baixa renda recebem bolsas.

“Nós tentamos quebrar essa lógica das horas de estágio. Pela legislação tem de cumprir carga horária, mas é preciso discutir qual a experiência que o estudante da licenciatura tem nesse estágio, por isso ele volta para a faculdade e discute o que viu”, detalha o diretor, Luis Paulo Martins. Com a residência educacional, a lógica é diferente. “Muitas vezes iluminamos a prática a partir da teoria; a ideia da prática é iluminar a teoria a partir da experiência. Um projeto de ação, reflexão e ação.”

Universidade e escola básica

Para Luis Paulo Martins, da Faculdade Sesi, a escola que recebe residentes precisa também
receber contrapartidas (foto: Karim Kahn Sesi/SP)

Na outra ponta, a recepção dos residentes da faculdade nas escolas — tanto na rede pública quanto na própria rede Sesi — demanda a construção das relações. O diretor menciona o histórico distanciamento entre a universidade e a escola básica. Há contrapartidas, como formação, atendimento com horário marcado para ajudar a resolver alguma questão na escola, ou até atender grupos de reforço em matemática.

Já os professores das escolas da rede Sesi que recepcionam os residentes recebem gratificação e gratuidade ou descontos nos cursos de especialização que a faculdade oferece. “Se estamos falando de profissionalidade, temos de reconhecer o profissional que dedica tempo para formar esse aluno.”

 

Primeiro ano do Pé-de-Meia Licenciaturas

De acordo com o MEC, “em 2025, ano de lançamento do Programa Mais Professores, 7.158 estudantes receberam bolsas. A atratividade também aumentou de forma significativa: houve crescimento de 62% no número de estudantes com mais de 650 pontos no Enem que se matricularam em licenciaturas presenciais”.

Os dados do último Sisu demonstram que há tendência de expansão no número de bolsistas, uma vez que o total de aprovados passou de 12.473 candidatos em 2025 para 17.884 em 2026. Além disso, houve aumento no número de cursos de licenciatura presenciais no Sisu, que foi de 2.086 cursos em 2025 para 2.278 em 2026, o que aumenta as possibilidades de acesso à bolsa. 

Um exemplo local mostra a mesma tendência. A Faculdade Sesi de Educação bateu recorde no número de matrículas. A média de 260 ingressantes por ano subiu — no ano passado, foram 280. Neste ano, em que houve a maior procura no vestibular já registrada, as aulas começam com 330 novos ingressantes.

Consolidar o Pé-de-Meia Licenciaturas como política pública estruturante é um dos objetivos do MEC para 2026. “No início do ano, o programa foi instituído por lei. A oferta anual de bolsas assegura sua continuidade e reforça as ações de incentivo e valorização da docência”, comunica o MEC.

 


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