Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo
Publicado em 26/03/2026
A desigualdade acontece entre os que têm acesso e capacidade de uso crítico da IA e os que permanecem à margem desse processo
A nova desigualdade educacional já não se limita ao acesso à escola, ao livro didático ou à conectividade básica. Ela está, cada vez mais, relacionada ao acesso qualificado às tecnologias emergentes — em especial à inteligência artificial (IA). Estamos diante de uma divisão silenciosa, porém profunda: entre aqueles que têm acesso, compreensão e capacidade de uso crítico da IA, e aqueles que permanecem à margem desse processo. Essa lacuna não é apenas tecnológica, mas pedagógica, social e, sobretudo, de oportunidade.
Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a integrar o cotidiano de milhões de pessoas. Ferramentas de escrita, recomendação de conteúdo, análise de dados e automação já fazem parte da vida de estudantes, professores e gestores. Segundo dados recentes de organismos internacionais, mais de 60% dos empregos atuais sofrerão algum impacto direto da automação e da IA nas próximas décadas. Isso significa que preparar estudantes para esse novo cenário não é mais uma escolha — é uma urgência.
No entanto, o acesso à IA não é equitativo. Enquanto escolas privadas e contextos mais favorecidos já incorporam ferramentas, formam professores e estimulam o uso crítico dessas tecnologias, grande parte das escolas públicas ainda enfrenta desafios básicos, como acesso à internet de qualidade, equipamentos adequados e formação continuada. Isso cria um tipo de exclusão, não apenas digital, mas também cognitiva e produtiva.
Essa desigualdade se manifesta de diferentes formas. De um lado, estudantes que utilizam IA para ampliar repertórios, desenvolver projetos, resolver problemas complexos e até mesmo criar soluções inovadoras. Do outro, estudantes que sequer compreendem o que é a IA ou a utilizam de forma passiva, sem mediação pedagógica, reproduzindo respostas sem reflexão crítica.
A diferença entre esses dois cenários impacta diretamente o desenvolvimento de competências essenciais, como pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas e autonomia.
Além disso, há um risco importante: o de que a IA reforce as desigualdades já existentes. Algoritmos treinados com dados enviesados podem reproduzir preconceitos e exclusões. Sem uma educação que prepare os estudantes para compreender como essas tecnologias funcionam, corremos o risco de formar usuários passivos e não cidadãos críticos e conscientes.

A questão central é quem terá condições de utilizar a IA de forma crítica, criativa e ética (foto: pexels)
É nesse contexto que a escola assume um papel central e insubstituível. Mais do que garantir acesso, ela precisa promover letramento em inteligência artificial. Isso significa ensinar não apenas a usar ferramentas, mas também a compreender seus limites, suas potencialidades e seus impactos éticos e sociais.
A escola pode começar por tratar a IA como objeto de aprendizagem transversal. Não é necessário criar uma disciplina isolada, e sim integrar o tema às diferentes áreas do conhecimento. Em língua portuguesa, por exemplo, é possível discutir a autoria, a produção de texto com apoio de IA e a análise crítica de conteúdos gerados automaticamente. Em matemática, explorar algoritmos, lógica e análise de dados. Em ciências humanas, refletir sobre os impactos sociais, econômicos e éticos da tecnologia.
Outro caminho potente é o desenvolvimento de projetos interdisciplinares. Em vez de apenas consumir tecnologia, os estudantes podem ser desafiados a criar soluções com IA, ainda que de forma simplificada. Projetos que envolvam a resolução de problemas reais, a análise de dados do território ou a criação de protótipos estimulam o protagonismo e a aprendizagem significativa.
A formação de professores também é um ponto-chave. Não se trata de transformar todos os educadores em especialistas em tecnologia, mas de oferecer condições para que se sintam seguros ao mediar essas discussões. Programas de formação continuada, comunidades de prática e troca de experiências são fundamentais para que o professor compreenda como integrar a IA de forma intencional e pedagógica.
Outro aspecto essencial é a promoção da equidade. A escola precisa garantir que todos os estudantes tenham acesso a oportunidades de aprendizagem relacionadas à IA, independentemente de sua condição socioeconômica. Isso pode envolver parcerias com instituições, o uso de ferramentas gratuitas, a adaptação de atividades para contextos com menos recursos e, principalmente, a criatividade pedagógica.
Vale destacar que inovação não está necessariamente atrelada a alto custo. Assim como em outras experiências educacionais, é possível trabalhar conceitos de IA de forma desplugada, por meio de atividades que simulem o funcionamento de algoritmos, a tomada de decisão e a análise de padrões. O mais importante é desenvolver o raciocínio e a compreensão conceitual.
A escola também deve assumir um papel ético nesse debate. Discutir privacidade de dados, uso responsável da tecnologia, impactos no mundo do trabalho e limites da automação é fundamental para formar cidadãos conscientes. A IA não pode ser tratada apenas como uma ferramenta, mas como um fenômeno social que exige posicionamento crítico.
Além disso, é fundamental envolver os estudantes como protagonistas desse processo. Muitos jovens já utilizam ferramentas de IA no seu cotidiano, ainda que de forma intuitiva. A escola pode canalizar esse interesse para práticas mais reflexivas e criativas, transformando o uso em aprendizagem. Quando o estudante entende como a tecnologia funciona, ele deixa de ser apenas consumidor e passa a ser autor.
Outro ponto relevante é o diálogo com as famílias. A nova desigualdade educacional também passa pela compreensão do uso de tecnologias no ambiente doméstico. Orientar as famílias sobre o uso consciente da IA, seus riscos e possibilidades contribui para uma abordagem mais integrada e consistente.
Por fim, é importante compreender que a questão não é ser “a favor” ou “contra” a inteligência artificial. A tecnologia já é uma realidade e continuará avançando. A questão central é: quem terá condições de utilizá-la de forma crítica, criativa e ética?
Se a escola não assumir esse papel, a desigualdade tende a se aprofundar. Mas, se ela se posicionar como espaço de mediação, reflexão e criação, pode se tornar um agente fundamental de equidade.
A nova desigualdade educacional não é inevitável. Ela pode ser enfrentada com intencionalidade pedagógica, investimento em formação, criatividade e compromisso com a equidade. Mais do que preparar estudantes para o futuro, trata-se de garantir que todos tenham o direito de participar ativamente da construção desse futuro.
A escola que compreende isso não apenas ensina sobre tecnologia — ela transforma trajetórias.