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Instituto Ayrton Senna

Artigos escritos por pesquisadores do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)

Publicado em 13/03/2026

IA na educação não substitui professores, amplia o valor das competências humanas

Com novas discussões no país, IA tende a assumir tarefas operacionais e reforçar o papel do professor como mediador e construtor de vínculos na aprendizagem

Por Karen Cristine Teixeira* | O debate sobre o uso da inteligência artificial (IA) na educação brasileira começa a ganhar contornos institucionais. O Conselho Nacional de Educação (CNE) está elaborando as primeiras diretrizes nacionais para orientar o uso pedagógico da IA em escolas e universidades, um marco regulatório inédito no país. A proposta busca estabelecer princípios para o uso responsável da tecnologia, incluindo formação docente, ética no uso de dados e preservação do papel central do professor no processo educativo.  

Mudanças no papel docente são uma constante.

É importante contextualizar que a docência e a educação estão em constante transformação. As concepções da pedagogia tradicional (ênfase conteudista expositiva na qual o professor estava no centro do processo de ensino-aprendizagem) foram sendo repensadas e deram espaço ao paradigma contemporâneo, cuja evidência de êxito não é mais apenas a cobertura do conteúdo, mas uma aprendizagem significativa que põe o estudante no centro e vê o professor como curador, orientador e mediador. Esse papel vai sendo revisto para responder aos objetivos da educação num dado tempo, numa dada sociedade e num determinado contexto.

Competências docentes tradicionalmente valorizadas, como o domínio do conteúdo, clareza expositiva, organização e controle da turma continuam sendo importantes, mas não dão conta de instrumentalizar e apoiar o professor para o exercício dessa profissão tão complexa e multifacetada. Com a mudança de paradigma e a valorização do socioemocional, ganham destaque competências como comunicação dialógica, colaboração, empatia, resiliência emocional, flexibilidade, pensamento crítico, entre outras.

 

O que muda com a chegada da IA?

A IA vem para apoiar o professor em diferentes tarefas, dado seu potencial para a automação sobre tarefas repetitivas e a ampliação das competências docentes. Com esses dois movimentos cresce ainda mais o valor das competências “humanas” e o professor ocupa menos um lugar de executor e mais um papel gestor, decisor e mediador do processo de ensino-aprendizagem.

 

Onde a IA pode apoiar mais e o que permanece essencialmente humano?

Em tarefas administrativas, como organização de registros e planejamento, sistematização de informações e geração de materiais-base. Assim, o tempo que o professor levaria para realizar tarefas repetitivas e burocráticas (ou aquelas nas quais a IA tem um potencial expandido de contribuição) pode ser investido em gerir o processo de ensino-aprendizagem, com observação, estratégia, acolhimento, diálogo, acompanhamento e reflexão.

Já ocorre uma atuação concreta da IA na personalização da aprendizagem. Adaptar níveis de dificuldade de acordo com a proficiência do estudante, produzir e ajustar conteúdos e atividades diversas, criar formas alternativas de trabalhar o mesmo tema. A IA consegue identificar padrões de erro e propor exercícios específicos para determinadas lacunas. No entanto, é importante dizer que ela adapta o ritmo e a forma, mas não decide o sentido da aprendizagem. Ela pode sugerir caminhos, mas não determina por que aprender, para que aprender ou o que é relevante naquele contexto específico e para aquelas pessoas.

Outro destaque para a IA diz respeito a feedback rápido e contínuo. Correções automatizadas de atividades objetivas, devolutivas imediatas em ambientes digitais e relatórios de desempenho são cada vez mais comuns. Essa agilidade pode ser extremamente valiosa para monitorar progresso e ajustar intervenções. Contudo, uma devolutiva pedagógica também envolve observação, percepção de sinais sutis ou ambíguos, interpretação, análise do contexto, empatia, encorajamento, entre outras competências por parte do educador.

 

Leia: Escola, comunidade aprendente

 

Há dimensões fundamentais do trabalho docente que a IA não substitui, pois cabe ao professor as decisões sobre o processo de ensino-aprendizagem e a intencionalidade pedagógica. Além disso, a IA não constrói vínculos pedagógicos nem assume responsabilidade pelo outro. Empatia envolve compromisso humano; julgamento ético exige decisões orientadas por valores; liderança pedagógica implica inspirar, mediar conflitos, saber regular as emoções e responder pelas escolhas educacionais. Adicionalmente, a criatividade docente é situada, orientada pelo contexto e pelas necessidades dos estudantes.

Ao mesmo tempo a IA pode ampliar competências docentes importantes. Ela fortalece o pensamento crítico ao exigir avaliação das sugestões geradas, apoia a tomada de decisão baseada em evidências ao organizar dados educacionais e pode favorecer a diferenciação pedagógica e a experimentação criativa. Nesse cenário, a IA deve ser entendida como parceira do professor, não como substituta, preservando a centralidade da responsabilidade e do julgamento profissional docente.

Para saber mais

Confira a seguir alguns exemplos de onde a IA pode apoiar mais e o que segue sendo expertise do professor.

Exemplos 
Onde a IA pode apoiar mais  O que segue expertise do professor 
Geração de ideias de atividades e planos de aula;

sugestão de sequências didáticas;

criação de materiais multimodais;

organização de conteúdos por objetivo;

sugestão de estratégias de engajamento;

analise de padrões de participação (em ambientes digitais);

sugestão de estratégias e atividades para potencializar o vínculo e autorregulação emocional;

geração de conteúdo/leituras para apoiar a ação docente;

apoio à análise de feedback;

sugestão de pontos de melhoria;

apoio à registros reflexivos;

geração de estratégias de ensino e comunicação alternativas;  

Decidir o que fazer para um grupo em específico;

ajustar o planejamento com base em clima escolar, perceber emoções, cultura da turma e acontecimentos imprevistos;

ler micro sinais emocionais ou sinais ambíguos;

entender silêncios, resistências e constrangimentos situados; julgar adequação cultural, etária, emocional (para o estudante real);

integrar criatividade com intencionalidade pedagógica;

perceber como as atividades são recebidas e o que, de fato, motiva;

relacionar-se de forma genuína;

cultivar interesse autêntico pelos estudantes;

promover presença afetiva; escutar de forma ativa e empática;

reconhecer/acolher sofrimento e emoções; crer no potencial de desenvolvimento;

gerenciar frustação;

lidar com conflitos;

sustentar a presença emocional ao longo do tempo e ensinar pelo exemplo;

refletir e significar sua prática docente;

atribuir sentido, valores e metas à profissão;

decidir quando, para quem e por quê;

realizar julgamento pedagógico;

ler o contexto;

tomar de decisão sob incerteza;

construir identidade docente e sentido no trabalho;

atuar com responsabilidade social;

estabelecer relações de confiança com a comunidade escolar;

comunicação sensível;

mediar expectativas e conflitos;

construir comunidade. 

 

Leia também: Ignorar IA pode gerar atraso estrutural

 

Para conhecer um pouco mais sobre o modelo organizativo de competências relevantes ao fazer docente do Instituto Ayrton Senna, consulte o artigo “More than just experience? Effects of years of teaching, age, and gender on teachers’ social-emotional and instructional characteristics” disponível em:  https://doi.org/10.1016/j.tate.2025.105203 

 

*Karen Teixeira é gerente de pesquisa do Laboratório de Ciências para Educação (eduLab21) do Instituto Ayrton Senna. Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia com ênfase em avaliação psicológica em saúde e desenvolvimento pela Universidade Federal de Santa Catarina. 

 


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