NOTÍCIA
Foi nas ruas de Palmares que o centenário colégio propôs enfrentar desafios atuais: o bom uso do celular junto à conscientização de violência contra a mulher
Ano passado, um experimento social mostrou a importância da união entre escola e comunidade. Nas ruas de um centro comercial da pernambucana Palmares, cidade de cerca de 60 mil habitantes, a 120 km do Recife, estudantes se passaram por um casal. Mas algo não estava bem: a jovem cutucava mulheres que cruzavam com eles e com uma das mãos para trás (para o suposto companheiro não perceber) fazia um sinal para as pessoas que estavam na rua — mão levantada com a palma aberta; polegar dobrado; os quatro dedos fechados sobre o polegar.
O que aconteceu ali foi uma simulação de socorro, sendo um sinal universal usado para pedir ajuda em situações de violência doméstica. Sim, o famoso muro da escola foi quebrado e deu-se forma à educação coletiva. A ação de conscientização fez parte de um projeto com estudantes do 3º ano do ensino médio do Colégio de Nossa Senhora de Lourdes (CNSL), o qual segue valores cristãos e franciscanos, sendo que segundo educadoras da instituição ali todas as religiões são respeitadas.
“A cena foi gravada pelos estudantes e divulgada nas redes sociais da instituição, gerando grande repercussão. Saímos da bolha da escola e informamos à sociedade como orientar em caso de violência contra a mulher. A nossa ação foi divulgada espontaneamente nas rádios e canal de televisão da cidade”, conta Maria Luzia Arcanjo, coordenadora dos anos finais e ensino médio do Colégio de Nossa Senhora de Lourdes.

Com 102 anos, instituição tem em torno de 450 estudantes que vivenciam da educação infantil ao ensino médio (foto: arquivo pessoal)
Esse experimento nas ruas de Palmares compôs as atividades do itinerário formativo rede social e incluiu ainda língua portuguesa e redação, tendo a supervisão do professor Wesley Pereira. Num mundo em que a desinformação só aumenta, o colégio resolveu não negar a realidade e, assim, educar seus alunos a usarem o celular de modo consciente — sendo esse o grande objetivo do itinerário formativo rede social do colégio, que com seus 102 anos tem em torno de 450 estudantes que vivenciam da educação infantil ao ensino médio.
E por falar em celular, a Lei Federal 15.100, que desde o primeiro semestre do ano passado restringe o uso desse dispositivo no ambiente escolar, tem gerado efeitos em diferentes escolas, não sendo diferente no CNSL. Edna Sales, do apoio pedagógico dos anos finais e médio, conta que de início, claro, houve resistência dos estudantes: “mas, desde então, notamos maior interação entre eles. Antes, no intervalo, os meninos ficavam praticamente cada um no seu canto com o celular. Com a restrição, começaram a trazer jogos e a socialização melhorou, gerando até mesmo melhor rendimento na sala de aula”.
Enquanto coordenadora, Maria Luzia destaca a importância de conversar com os professores sobre quão é importante eles acreditarem naquilo que fazem. “Em qualquer projeto escolar, primeiro, nós, educadores, nos encantamos para, então, encantarmos os meninos e as meninas”, diz. “O encantamento é muito interessante. Nós idealizamos e organizamos algo que supera as nossas expectativas. Os estudantes se envolvem de corpo e alma”, acrescenta.
Um exemplo desse encantamento, segundo Maria Luzia, é a Mostra Literária, em que cada turma escolhe um dos livros de literatura trabalhados no ano para apresentar. Ano passado, a mostra foi em formato musical, teve até curta-metragem e, como diferencial, não ocorreu na escola, como de costume, mas no teatro da cidade. Tanto Edna como Maria Luzia reconhecem que um dos maiores desafios do dia a dia profissional delas é a relação escola e família e os limites entre os seus papéis. Aliás, buscando um melhor diálogo, elas relatam que já criaram diferentes formatos de reuniões com os familiares.
Destaque do CNSL são os resultados dos estudantes no Enem. Uma das causas é porque a cada bimestre os estudantes do ensino médio aplicam um simulador preparatório para o Enem, sendo a devolutiva dos resultados o ponto principal. Ocorre da seguinte forma: professores recebem os resultados de modo automático, mas a coordenação repassa também aos docentes uma planilha por área do conhecimento e, dentro, a nota individual de cada estudante. O objetivo é a visualização de um raio X do que foi alcançado e do que não foi ao longo do bimestre. “Essa prática existe há dois anos e vemos resultados nos alunos. Inclusive, eles mesmos ficam interessados em saber como se saíram. O professor faz um trabalho até individualizado com o aluno para mostrar o que precisa melhorar e onde tem avançado”, esclarece Maria Luzia.

Simulador do Enem com devolutivas tem gerado bons resultados entre os jovens do colégio (foto: arquivo pessoal)
Estimular crianças e jovens a se autoconhecerem continua sendo tarefa valiosa da escola contemporânea. “Muitos estudantes chegam ao 1º ano do ensino médio já sabendo a área que pretendem seguir. Mas, no meio do caminho costumam mudar de ideia. Isso por conta de as escolhas partirem mais da vontade e nem sempre da habilidade. Trabalhamos muito o desenvolvimento e descobrimento de habilidades, porque uma coisa é eu ter vontade de seguir determinada profissão porque meu pai tem vontade que eu siga, que atue na mesma carreira que ele; só que os jovens têm outras habilidades e vão descobrindo no decorrer do ensino médio”, relata Maria Luzia. Edna complementa que o projeto de vida, oriundo do novo ensino médio, tem ajudado a afinar essa questão.