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Revista Educação

Publicado em 27/02/2026

Aplicativo de análise de dados apoiará redes públicas

Ferramenta em desenvolvimento por analistas do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da USP cruza indicadores educacionais e sociodemográficos para embasar políticas educacionais e reduzir desigualdades

Por Marília Rocha | Um aplicativo desenvolvido por analistas do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) reúne dados educacionais, socioeconômicos e demográficos para realizar análises ampliadas e novas formas de verificar o desempenho de redes de ensino em todos os estados e municípios do País. O objetivo é oferecer apoio à formulação de políticas públicas por gestores e equipes das secretarias de educação.

A partir de ampla base de dados, com indicadores de avaliações nacionais, investimento por aluno, PIB (Produto Interno Bruto), IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), entre outras informações, o aplicativo realiza cruzamentos rápidos de grande volume de dados e permite compreender desigualdades educacionais, diferenças e semelhanças entre redes de todas as regiões com modelo de visualização amigável e de fácil usabilidade.

Construída com apoio da B3 Social e atualmente em fase de testes, a ferramenta está sendo usada por 14 secretarias de educação parceiras da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira para a verificação de possíveis melhorias. Ao longo do primeiro semestre de 2026, a expectativa é que até 50 redes sejam convidadas a participar do piloto e oferecer feedbacks em quatro estados onde a Cátedra atua: São Paulo, Alagoas, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Após a realização de eventuais correções e ajustes de usabilidade, a previsão é que em 2027 esteja disponível a versão 1.0 do aplicativo.

 

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“Buscamos transformar a experiência de 6 anos da Cátedra em um instrumento que não apenas reúna dados, mas permita uma customização para que cada usuário possa manusear as informações e extrair os insights sobre sua própria realidade, com autonomia”, afirmou o idealizador da iniciativa, João Henrique Rafael Júnior, assistente acadêmico do IEA em Ribeirão Preto. “Desde o início, nossa equipe levava análises personalizadas para as redes parceiras, depois começamos um trabalho de formação de técnicos nas secretarias para implementar uma cultura de dados em cada território; o próximo passo que faltava era permitir uma experiência contínua e intuitiva de seguir trabalhando com os indicadores”, reforçou.

João Henrique Rafael Júnior, assistente acadêmico do IEA em Ribeirão Preto. apresenta uma das tabelas geradas pelo aplicativo (foto: divulgação/IEA-RP)

Segundo ele, a partir das pesquisas da Cátedra, foi possível identificar o conjunto de principais indicadores que, ao serem combinados e tratados, permitem gerar análises robustas e revelam leituras que seriam difíceis de obter em cálculos mais fragmentados ou manuais.

“Nós não fazemos a interpretação dos resultados, mas ajudamos as redes a compreender suas realidades e avaliar o que está dando certo e o que precisa ser aprimorado. Com o uso sistemático de dados, as secretarias podem requalificar a forma como olham suas políticas, desenhar intervenções rápidas e tomar decisões embasadas, direcionadas para a melhoria da qualidade do ensino”, afirmou Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira.

 

Visualizações instantâneas e diversificadas

A ferramenta trabalha com bases de dados públicas e oficiais, como a série histórica do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) desde 2005 para os mais de 5,5 mil municípios brasileiros, dos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental, informações de investimento por aluno reportadas no Siope (Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação), além dos dados de perfil sociodemográfico de cada município. A partir de milhões de células de informações, o aplicativo realiza cálculos e gera visualizações instantâneas com abordagens diversificadas.

Além de conhecer melhor sua própria trajetória e compreender se há consistência ou irregularidade no desempenho de sua rede ao longo dos anos em relação à meta do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), por exemplo, cada município pode comparar seu desempenho com qualquer outro conjunto de municípios. É possível visualizar simultaneamente todas as redes de uma região metropolitana, ou então comparar apenas aquelas com características mais similares em termos de população e PIB.

 

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Uma das análises do aplicativo localiza redes que são demograficamente muito parecidas, mas com a maior distância nos resultados de matemática e língua portuguesa, enquanto outro gráfico mostra redes com o mesmo investimento por aluno, mas desempenhos opostos. Também é possível localizar quais as redes que, durante a série histórica, conseguiram manter consistência e atingir suas metas de língua portuguesa e matemática, ou aqueles que não atingiram nenhuma das duas em todas as ocorrências. Nos Anos Iniciais, por exemplo, apenas 51 municípios conseguiram esse resultado positivo de forma recorrente, enquanto mais de mil municípios não alcançaram a aprendizagem adequada em nenhum dos componentes durante o período observado.

“Essas visualizações permitem fazer um benchmark e localizar casos de destaque que podem trazer inspirações ou exemplos. Ao invés de apenas olhar para si, buscar boas práticas que podem ser adaptadas localmente”, destaca João Henrique. “Por outro lado, também visualizamos de forma mais nítida o crescimento da desigualdade. Por exemplo, há estados em que os municípios entre os 20% com melhor desempenho têm perfis sociodemográficos muito semelhantes aos 20% com pior desempenho, e a diferença de desempenho entre eles cresce muito nos últimos anos. O que pode estar explicando isso?”, questiona.

 

Formações de profissionais utilizarão o aplicativo

A partir deste mês, as formações ofertadas pela Cátedra com apoio da B3 social para redes parceiras passarão a incorporar o aplicativo como uma das ferramentas trabalhadas com as equipes das secretarias de ensino. Entre os dias 21 e 26 de fevereiro, o primeiro grupo de municípios e organizações parceiras já iniciou os testes para realizar levantamentos personalizados.

Aplicativo

A iniciativa foi apresentada durante a conferência “Estratégias para a melhoria da educação na Região Metropolitana de Ribeirão Preto (foto: Thaís Cardoso)

“Poder explorar o aplicativo foi incrível, tem uma gama de funcionalidades que realmente nos permite aprofundar as análises e trazer vários insights. A gente já trabalha muito com os dados do Ideb, mas acaba focando no desempenho e esquecendo os indicadores de contexto, no aplicativo a gente consegue ter mais correlação entre os fatores, além de otimizar o tempo operacional de organização dos dados, liberando mais tempo para as análises mesmo”, afirmou Gabrielle do Nascimento Silva, assessora na Unidade de Planejamento e Gestão Estratégica da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

 

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Para ela, praticar a cultura de dados em uma secretaria de educação é essencial para aprimorar o mapeamento da realidade da rede e calibrar as iniciativas que são mais necessárias. O acompanhamento qualificado dos indicadores permite conhecer de forma mais qualificada aquilo que está funcionando e o que precisa de ajustes, realizando com mais eficiência as mudanças necessárias, ao invés de repetir práticas que não dão resultado.

“Tanto o aplicativo quanto a formação foram fundamentais para nossa equipe, na correria do dia a dia das secretarias às vezes acabamos usando alguns indicadores de forma padronizada, mas quando refletimos sobre o conceito por trás dos dados e os fundamentos dos componentes, conseguimos fazer análises mais consistentes”, explicou. “A parceria com a Cátedra nos permite enriquecer o debate e realizar trocas muito ricas, conhecer outras práticas e modelos de uso das evidências que podemos adequar à nossa realidade, para melhorar algum processo e agregar valor às análises. Queremos voltar para a secretaria levando esses aprendizados para a rede e propor melhorias na educação de forma responsiva.”

A iniciativa foi apresentada durante a conferência “Estratégias para a melhoria da educação na Região Metropolitana de Ribeirão Preto”, no Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da USP. Realizada em 26 de fevereiro, a conferência marcou o início das atividades de 2026 da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, responsável pelo dossiê e o aplicativo, e da Cátedra Instituto Ayrton Senna de Inovação em Avaliação, liderada por Maria Helena Guimarães de Castro.

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