NOTÍCIA
O projeto TEACH-AI visa ajudar futuros educadores a usar a IA de forma ambientalmente consciente e a ensinar lições sobre mudanças climáticas
Por Ariel Gilreath e Caroline Preston | Sou uma daquelas raras pessoas (existem outras por aí, certo?) que ainda não experimentaram o ChatGPT ou qualquer outro programa de inteligência artificial generativa. Parte da minha hesitação é motivada por uma vaga preocupação de que a IA esteja destruindo o planeta: pesquisadores preveem, por exemplo, que os data centers dos EUA poderiam consumir tanta água quanto 10 milhões de americanos e emitir tanto carbono quanto 10 milhões de carros. Ao mesmo tempo, há esperança de que a IA possa combater as mudanças climáticas, acelerando a pesquisa de soluções climáticas.
Fiquei intrigada ao me deparar com o anúncio de uma nova iniciativa sobre como ensinar professores do ensino fundamental e médio a usar IA com foco nas mudanças climáticas. O projeto, chamado TEACH-AI, foi iniciado no outono passado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Irvine, da Universidade de Indiana em Bloomington e da Universidade de Bremen, na Alemanha. Entre outros projetos, eles desenvolvem um curso para ajudar futuros educadores a entender como usar a IA de forma ambientalmente consciente e como utilizá-la para ensinar lições sobre mudanças climáticas.
Minha colega Ariel Gilreath, que cobre educação básica para a Hechinger, conversou esta semana com uma das criadoras do TEACH-AI, Asli Sezen-Barrie, titular da cátedra de educação climática e ambiental e professora associada da Faculdade de Educação da UC Irvine. Segue a entrevista de Ariel com Sezen-Barrie, editada para maior concisão e clareza.
— Caroline Preston
Instituições têm lançado muitas iniciativas em torno da IA. Neste momento, é difícil simplesmente dizer: “Não usem isso”, porque há benefícios que professores e alunos percebem. Então pensamos: “OK, como podemos fazê-los refletir sobre o custo ambiental disso?”
Ao mesmo tempo, estávamos tentando entender qual é o nível de confiança e a base de conhecimento que os educadores têm atualmente, não apenas sobre ferramentas comumente conhecidas como o ChatGPT, mas também sobre outras ferramentas de IA desenvolvidas para fins educacionais, inclusive para compreender as mudanças climáticas.
O que comecei a perceber foi que os professores com consciência ambiental eram, na verdade, muito mais cautelosos do que imaginávamos inicialmente. Mesmo quando seus alunos estavam usando a IA, eles se mostravam preocupados. Seus distritos estão trabalhando na adoção de certas ferramentas, e esses professores estavam, inclusive, destacando vários motivos pelos quais não usar IA seria algo positivo no momento. Ouvimos preocupações semelhantes de nossos colegas na Alemanha.
O que pensamos então foi: se os alunos vão usar a IA, se os distritos escolares vão adotá-la e os professores estão realmente preocupados, vamos tentar encontrar uma maneira de entender como podemos usar as mudanças climáticas como contexto para ver como a IA pode ser usada de forma intencional — como escolher as ferramentas certas, quando a ferramenta de IA pode se alinhar aos nossos objetivos — e também criar atividades que os professores ou seus alunos possam usar para debater a análise de custo-benefício de determinadas ferramentas de IA.
Vai ser uma combinação dos dois. Como este será um curso único, trata-se de um trabalho exploratório. Meus colegas desenvolveram uma ferramenta chamada StoryAI, que tem um objetivo e propósito específicos e, como resultado, reduz o custo de energia. Vamos ver como podemos aproveitar o big data para armazenar dados com essa ferramenta sobre temas de ensino como moda sustentável, desperdício de alimentos ou incêndios.
Considerando a quantidade de água e energia que os centros de dados de IA consomem, tem havido muito debate sobre se o uso de IA em si é prejudicial ao meio ambiente. Gostaria muito de ouvir sua opinião sobre isso.
Essas preocupações são válidas. Mas, neste momento, onde estou, é difícil para mim dizer: “É ruim — ponto final”. Porque existem razões válidas pelas quais os professores dizem que usam esse recurso, como em tarefas muito complexas. A mudança climática é um tema muito complexo. E nós os orientamos a ensiná-la de forma interdisciplinar, abordando como as comunidades se importam com o assunto e o que a ciência diz a respeito.
Talvez seja aí que as ferramentas de IA possam auxiliar os educadores. Elas podem ser usadas para aprender sobre as mudanças climáticas, os dados atuais e as pesquisas na área.
Precisamos refletir sobre quais ferramentas de IA e que tipo de uso da IA se alinharão com sucesso à maneira como estamos projetando o ensino e a aprendizagem, e quais fracassarão. Precisamos preparar os educadores para lidar com esse julgamento.
O curso chama-se “Uma educação para futuros sustentáveis”. Vamos explorar as duas perspectivas que mencionei: como as ferramentas de IA desempenham um papel na compreensão e na elaboração de projeções sobre as mudanças climáticas e como elas apoiam as soluções — ou não, em certos casos. O outro componente é a alfabetização em IA.
Atualmente, muitos cursos de mestrado profissional estão sendo oferecidos em todo o país, e também internacionalmente. Não se vê muita discussão — ou um curso, ou mesmo um elemento curricular — sobre o impacto ambiental. Viés, viés linguístico e dependência são discutidos um pouco, mas não sob uma perspectiva ambiental.
Também estamos realizando análises documentais para examinar as diretrizes da Califórnia, Alemanha e Unesco, a fim de verificar onde as recomendações de IA podem se alinhar com a alfabetização ambiental.
A educação pode desempenhar um papel fundamental nessas discussões, porque as pessoas tomam decisões, as pessoas votam em coisas. O desconhecimento e a falta de compreensão dessas questões impedem que elas tomem decisões informadas.
O papel da educação pode ser realmente crucial para promover essas discussões e ensinar a analisar esse tipo de dado.
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