NOTÍCIA

Políticas Públicas

Autor

Redação revista Educação

Publicado em 23/01/2026

Entre o giz e o voto: perspectivas da educação brasileira para 2026

O maior desafio do campo educacional não é apenas técnico ou administrativo, mas ético e político

Por Denis Plapler* | Ao analisar as perspectivas da educação brasileira para 2026, enxergo avanços importantes no campo das políticas públicas. Por exemplo, a larga expansão da educação integral merece destaque e atenção. O mesmo vale na discussão de um novo Plano Nacional de Educação (PNE), o qual, para seguir na linha do fortalecimento de uma educação integral inclusiva, ecológica e democrática — ainda que o atual Ministério da Educação (MEC) deixe a desejar no campo do debate sobre ensino aprendizagem e inovação pedagógica —, não pode ser captado por interesses privados

O coração da escola pública brasileira revela algo que os números nem sempre mostram: ampliar o acesso e o tempo de permanência na escola é fundamental, mas insuficiente se não discutirmos, com a mesma intensidade, que tipo de experiência educativa estamos oferecendo.

 

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A aposta na educação integral, para exemplificar, é uma das principais bandeiras do debate educacional atual. Em tese, trata-se de uma resposta correta às desigualdades históricas do país. Mas, educação integral não pode ser confundida com simples ampliação da jornada escolar ou ocupação do tempo das crianças.

 

Educação integral com planejamento

Se não houver investimento real em projetos pedagógicos consistentes, formação das equipes e condições dignas de trabalho, corremos o risco de transformar uma política potente em um simulacro: mais horas, mas, não necessariamente, mais sentido, mais escuta ou mais aprendizagem. A educação integral depende de políticas públicas e do diálogo entre os diferentes equipamentos para que a educação transborde os muros das escolas para, então, as cidades se transformarem em cidades educadoras.

 

Financiamento e organização

Já o PNE pode representar uma oportunidade decisiva para recolocar a educação como política de Estado e não como refém de interesses privados. Sem financiamento adequado e sem mecanismos de acompanhamento social, o risco é repetir a história de planos ambiciosos que pouco alteram a realidade cotidiana.

O corte no orçamento das universidades públicas aprofunda um quadro estrutural de fragilização do ensino superior no Brasil, com impactos diretos na permanência estudantil, na pesquisa científica e na capacidade institucional de planejamento de médio e longo prazo.

educação 2026

A educação só fará sentido se for construída com escuta, participação e respeito, aponta Denis (foto: Freepik)

Em um país marcado por profundas desigualdades, o subfinanciamento das universidades limita sua função social, enfraquece a produção de conhecimento crítico e reduz a soberania científica nacional, justamente em um contexto global que exige inovação, pensamento complexo e investimento público consistente em ciência, tecnologia e formação humana.

 

Desvalorização docente, ainda

No campo da inclusão, os avanços são inegáveis. O discurso da educação inclusiva está mais presente e consolidado. Ainda assim, a prática revela enormes desafios. Incluir não é apenas matricular; é reorganizar tempo, currículos, expectativas e relações. É aceitar que as crianças aprendem de formas diferentes e que a escola, ou qualquer espaço educativo, precisa se adaptar a elas, e não o contrário. Isso exige formação contínua, apoio técnico e, sobretudo, uma mudança cultural profunda, que não se faz por decreto.

A situação dos educadores talvez seja o ponto mais preocupante. Em 2026, seguimos discutindo reajustes salariais insuficientes, adoecimento profissional e desvalorização do trabalho docente. Espera-se que os educadores sejam inovadores, acolhedores, tecnicamente competentes e emocionalmente disponíveis, mas, raramente se garante a eles condições materiais e institucionais à altura dessa expectativa. Não haverá salto de qualidade na educação brasileira enquanto os educadores continuarem sendo tratados como custo, e não como investimento estratégico.

A plataformização da educação nas redes públicas brasileiras tem imposto aos docentes e às escolas uma lógica de controle, padronização e dependência tecnológica que tensiona a autonomia pedagógica e o sentido público da educação. Sob o discurso da inovação, da eficiência e da modernização, plataformas privadas passam a organizar currículos, avaliações, registros e rotinas escolares, convertendo o trabalho docente em execução de tarefas previamente definidas por algoritmos e contratos pouco transparentes.

 

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Esse processo aprofunda a precarização do trabalho docente, fragiliza o vínculo pedagógico e subordina políticas educacionais a interesses de mercado, além de produzir extração massiva de dados de estudantes e professores. Ao deslocar decisões pedagógicas do espaço democrático da escola para ambientes corporativos digitais, a plataformização ameaça a construção de uma educação crítica, contextualizada e comprometida com a diversidade e a função política e social da escola pública.

Também cresce o entusiasmo em torno da inteligência artificial (IA) e das tecnologias educacionais. Elas podem, sem dúvida, contribuir para personalizar aprendizagens e apoiar o trabalho pedagógico. Mas é preciso cautela. Tecnologia não substitui vínculo, escuta nem projeto educativo. Em um país marcado por profundas desigualdades, a incorporação acrítica dessas ferramentas pode, inclusive, ampliar distâncias entre quem tem acesso, formação e infraestrutura e quem não tem.

Escuta e respeito

Diante desse cenário, acredito que o maior desafio da educação brasileira em 2026 não seja apenas técnico ou administrativo, mas ético e político. Precisamos decidir se queremos uma educação orientada por indicadores e resultados imediatos ou uma educação comprometida com a formação integral, a democracia e os direitos das crianças e dos jovens. Essa escolha passa pelas eleições, se expressa nas políticas públicas, mas também — e talvez principalmente — no cotidiano das práticas educativas.

A educação só fará sentido se for construída com escuta, participação e respeito. Se reconhecermos crianças e jovens como sujeitos de direitos, e não como objetos de intervenção. Se cuidarmos de quem educa.

O ano de 2026 pode marcar um avanço significativo ou apenas mais um capítulo de promessas não cumpridas. A diferença estará na coragem coletiva de colocar a vida e a dignidade humana no centro do projeto educacional do país.

 

*Denis Plapler é cientista social, mestre em Filosofia da Educação e atua há 25 anos como docente. É coordenador pedagógico do Instituto Anchieta Grajaú e presidente da Associação Janusz Korczak Brasil.

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