NOTÍCIA
Quando se sente considerado, o público infantojuvenil aprende a valorizar a fala dos mais experientes,
Por Ana d´Angelo, Clara Becker, Januária Alves e Victor Vicente* | O protesto de crianças e adolescentes dentro da plataforma de jogos digitais Roblox não é apenas um episódio curioso da cultura gamer: ele traz elementos essenciais para pensar a proteção desse público e os desafios da aplicação do ECA Digital, a legislação brasileira que começa a valer em março deste ano.
Primeiramente, cabe destacar que adultos desconhecidos não devem ter a possibilidade de conversar com crianças e adolescentes em jogos online, temos testemunhado os imensos prejuízos de várias ordens que esse tipo de interação pode gerar. A decisão do Roblox é acertada e necessária. Entre as medidas estão a verificação de idade para liberação dos chats de texto e voz, com validação facial; a restrição do uso de chat para menores de 9 anos; e a proibição da comunicação direta entre crianças e adultos. As iniciativas foram, em geral, bem recebidas e contam com o apoio de organizações que atuam na defesa dos direitos e na proteção de crianças e adolescentes.
Mas imediatamente após a restrição, começaram a aparecer os primeiros protestos na própria plataforma; uma manifestação organizada pelos atingidos pelas medidas, ou seja, as crianças e adolescentes. Os usuários criaram “plaquinhas virtuais”, exigiram a volta do chat e prometeram retaliações ao Roblox, incluindo ameaças de invasão à sede da empresa. Até o influenciador Felca, autor do vídeo viral que denunciou a chamada “adultização” de crianças e adolescentes e ajudou a acelerar o debate legislativo no Brasil, passou a ser alvo de ataques.
Curiosamente, essa decisão do Roblox em nada tem a ver com o Felca ou com a regulação brasileira. Ela é uma decisão global. Mas traz ensinamentos para nosso país, que está em vias de implementar a Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital.
Acima de tudo, o que ficou evidente com os protestos foi a importância e o valor de se ouvir e estabelecer diálogo com os envolvidos diretamente nas novas regras. Especialmente com o público adolescente, somente a proibição pura e simples de qualquer produto ou serviço não costuma funcionar bem. Isso porque tal conduta ignora que eles são sujeitos de direitos com necessidades e opiniões próprias, desconsiderando sua capacidade de se posicionar diante de quaisquer assuntos, ainda mais se lhes dizem respeito. É necessário entender os usos e preferências dos jovens no ambiente digital e conversar sobre os acordos necessários para a proteção nesse ambiente para educá-los e prepará-los para um uso consciente, ético e equilibrado. Educação é processo, escuta, diálogo, e está para além das proibições.
Responsáveis que fizeram parte do nosso estudo conduzido no âmbito do Redes de Proteção ficaram preocupados com o protesto das crianças porque muitos desconhecem o próprio uso que os filhos e colegas fazem da plataforma. Inclusive o fato de se tratar de uma rede social. Muitos acreditam que são apenas jogos e ignoram o acesso aos chats, que foram atingidos de frente pelas medidas anunciadas neste começo do ano.
Este episódio também revela um público atravessado por sentimentos de ira e, paradoxalmente, de vulnerabilidade. Muitas das crianças e adolescentes afirmam que os chats do Roblox eram o único espaço em que experimentavam pertencimento e reconhecimento. São justamente elas as que mais necessitam de proteção. A ausência de mediação, regras e cuidados adequados torna esse perfil especialmente suscetível à cooptação por grupos extremistas, que se apresentam como espaços de acolhimento, identidade e escuta.
Trata-se de uma dinâmica já conhecida no ambiente digital: a radicalização costuma se apoiar, antes de tudo, em sentimentos de exclusão, solidão e falta de pertencimento — fatores agravados quando a navegação ocorre em plataformas sem regulação efetiva.
Crianças e adolescentes devem ser respeitados, ouvidos e ter o seu melhor interesse contemplado no debate e na regulação do ambiente digital. Quando se sente considerado, o público infantojuvenil aprende, por meio do exemplo, a valorizar a fala dos mais experientes, daqueles que pensam diferente, exercitando, na prática, o princípio de que uma sociedade equânime e justa se constrói por meio deste tipo de comportamento. A vida digital faz parte da vida cotidiana de todos nós e por isso precisamos construir juntos as soluções para proteção e boas práticas neste contexto e não fora dele.
O protesto trouxe ainda outro debate urgente no Brasil. O Roblox é a empresa que há mais tempo testa mecanismos de verificação de idade e quando os implementou na Austrália e outros países não obteve bons resultados. A IA confundiu várias vezes as idades dos jogadores e não pareceu resolver o principal problema: a enxurrada de predadores que usam a plataforma para aliciar crianças pequenas.
O Eca Digital prevê mecanismos de verificação etária e ainda não sabemos como isso será feito. Às plataformas digitais foi dado o prazo até fevereiro de 2026 para apresentarem as alternativas de cumprimento da lei.
A nova lei, chamada Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, foi sancionada e passa a valer em março de 2026. Ela obriga plataformas, redes sociais, jogos e serviços digitais a adotarem mecanismos confiáveis de verificação de idade para proteger crianças e adolescentes de conteúdos impróprios e riscos online. A autodeclaração de idade atualmente usada não será suficiente.
A lei é fundamental e também é necessária que as crianças e adolescentes compreendam sua função, e sobretudo, que sintam-se contemplados por ela em seus anseios, dificuldades e possibilidades de expressão. Ouvi-las, incluí-las nas decisões a serem tomadas é educar para o exercício da liberdade e da cidadania responsável o que, com certeza, surtirá melhores resultados na prática, até para que possam protestar sobre seja lá o que for com argumentos bem estruturados, visando o bem-estar de todos e de cada um.
Ana d´Angelo – diretora de comunicação do Redes Cordiais: Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, foi editora-assistente da Agência Lupa e editora do site *desinformante. Tem trabalhado com organizações do terceiro setor nos últimos 15 anos, especialmente, nos temas do digital, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.
Clara Becker – diretora executiva do Redes Cordiais: Uma das fundadoras do Redes Cordiais, é formada em Comunicação Social pela PUC-RJ e em Letras pela UFRJ. Passou pelas revistas Piauí e Veja Brasília e, nos últimos anos, especializou- se em combate à desinformação atuando na Lupa, a primeira agência de fact checking brasileira. É co-autora dos livros The Football Crónicas, editado pela Ragpicker Press e Los Malos da Universidad Diego Portales
Januária Cristina Alves – coordenadora do Pequenos Cordiais: Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira. É coordenadora do Pequenos Cordiais, colunista do Nexo Jornal, membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação e do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade do Instituto de Estudos Avançados da USP, além da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Victor Vicente – diretor de Projetos do Redes Cordiais: Victor Vicente é diretor de projetos do Redes Cordiais. Ele é doutorando em ciências da comunicação (USP), com período como pesquisador visitante no centro CARISM, sediado na Université Paris-Panthéon-Assas. Também é mestre em comunicação e cultura (UFRJ). Autor de um livro didático sobre educação digital, aprovado pelo MEC no PNLD 2026-2029. Atua na sociedade civil organizada, com causas relativas a direitos humanos na internet, há mais de dez anos, com passagens pelo Instituto Vero, Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e MediaLab.UFRJ.