NOTÍCIA

Gestão

Autor

Carol Firmino

Publicado em 02/04/2025

Clima organizacional como base para a convivência e aprendizagem

Clima escolar impacta bem-estar de toda a comunidade e traz benefícios como maior motivação para aprender e sensação de pertencimento; pesquisadoras e gestores(as) falam sobre como buscá-lo e quais as principais dificuldades enfrentadas

Em um cenário educacional cada vez mais desafiador, o clima organizacional emerge como fator determinante para a qualidade da convivência e da aprendizagem nas escolas. Esse conceito, que incorpora o conjunto de percepções, sentimentos e relações dentro do ambiente escolar, influencia diretamente o bem-estar dos estudantes, da gestão, docência e funcionários em geral.

Segundo Rita Jobim, gestora de formação do Centro Lemann de Liderança para a Equidade na Educação, quando esse clima é positivo, influencia a motivação para aprender, atenua o impacto negativo do contexto socioeconômico sobre a aprendizagem e contribui para o desenvolvimento emocional e social dos alunos. “Impacta não só o sucesso imediato do estudante, como seu efeito pode persistir por anos. Sabe aquele sentimento de carinho que muitas pessoas carregam da escola? Com certeza experienciaram um bom clima escolar”, diz.

Dimensões de clima escolar positivo

Valeria Oliveira, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Desigualdades Escolares (Nupede), da mesma universidade, explica que a avaliação do clima organizacional de uma escola implica a coleta de informações com todos os atores que fazem parte desse espaço — estudantes, docentes, gestores e gestoras, famílias etc. É necessário saber a percepção deles a respeito das relações interpessoais e da qualidade das interações que eles estabelecem dentro da escola para realizar o diagnóstico de clima. “Esse, porém, é um dos principais desafios que a gente tem no Brasil, pois não há instrumento que recolha regularmente esses dados”, acredita Valeria.

Nesse caso, a pesquisadora lembra que o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) apura algumas informações junto aos estudantes, professores e direção que podem trazer evidências. Ela sugere também o instrumento que o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) oferece para avaliar questões de convivência nas escolas.

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Luciene Tognetta, professora na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenadora na linha de pesquisa Convivência na escola: virtudes, bullying e violência, do Gepem, considera que o principal sinal de que uma escola tem um clima organizacional positivo não é a ausência de conflitos, mas as pessoas que ali convivem terem clareza de que eles existem, são tratados de maneira respeitosa e serão resolvidos.

Segundo Luciene, um clima escolar positivo impacta diretamente a sensação de pertencimento: “Crianças e adolescentes vão se sentir mais engajados, sentir que são queridos, que têm valor aos olhos dos seus professores, que se sentem respeitados e acolhidos. Do ponto de vista do desenvolvimento socioemocional, esses meninos e meninas têm ganhos expressivos, assim como os seus professores, que vão compartilhar desse espaço de acolhida e bem-estar”.

Enfrentamentos e desafios

Tanto na rede pública quanto na particular, desafios como a sobrecarga de trabalho dos professores, a falta de infraestrutura adequada e a necessidade de maior participação da comunidade escolar podem impor barreiras à construção de um ambiente que ofereça conforto e segurança a quem o frequenta. Segundo Luciene, “esses problemas podem se diferenciar em termos de conteúdo, mas são comuns às duas redes: uma escola pode ter dificuldades na dimensão de aprendizagem, a outra, na questão do sofrimento emocional”.

No entanto, em ambas as realidades, os gestores e gestoras escolares têm papel central. Rita Jobim destaca que “eles são responsáveis por criar uma cultura que promova a inclusão, o respeito e o desenvolvimento integral dos estudantes. Isso implica não apenas administrar recursos, mas adotar práticas de liderança colaborativa, ouvindo as necessidades de professores, alunos e famílias”.

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Por meio do Programa de Formação de Lideranças Educacionais do Centro Lemann, iniciativa voltada para o desenvolvimento e fortalecimento de líderes que atuam na educação pública brasileira, foi possível identificar que alguns desafios aparecem com certa frequência nesse espaço. Rita pontua a presença de docentes desmotivados, famílias distantes da escola, casos de bullying, conflitos e violência, falta de recursos financeiros e ausência de identidade com a cultura local.

Em contrapartida, uma pesquisa realizada na Unesp apontou que os alunos de escolas particulares estão mais propensos a sofrerem com casos de cyberbullying. Um questionário com 15 exemplos de ações classificadas como intimidadoras foi apresentado a 3.469 estudantes do estado de São Paulo (1.991 da rede pública de ensino e 1.478 da rede privada), com idades entre 11 e 17 anos. Os dados mostraram que houve maior prevalência para o último grupo em 11 das 15 situações. Isso indica, por exemplo, “que é necessário um trabalho mais sistematizado com esta temática [para o clima] na escola particular”, completa Luciene.

Boas práticas nas redes pública e particular

“Entender que a escola pública é para todos e, assim, não apenas garantir o acesso, mas a permanência neste ambiente. Para ser saudável, deve ainda possibilitar e buscar estratégias que mantenham a saúde mental sadia, ir além do processo de aprendizagem, respeitar o indivíduo com sua particularidade e inseri-lo na sociedade.” É assim que Paula Beatriz, diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, Capão Redondo, SP, descreve o que é necessário para encontrar condições favoráveis de clima escolar. Ela defende que é papel da direção, portanto, adotar a escuta ativa e garantir que haja espaço para refletir sobre aspectos importantes para a qualidade da convivência.

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Acolhimento de cada educador no 1º dia de planejamento, em 2025, da Escola Estadual Santa Rosa de Lima. De vermelho, a diretora Paula Beatriz (Foto: acervo EE Santa Rosa de Lima)

Segundo a diretora, um ambiente escolar acolhedor só é possível quando se tem clareza dos princípios previstos no projeto político-pedagógico da instituição em consonância com os demais marcos legais. “É esse acolhimento que garantirá a frequência às aulas, e o interesse pela aprendizagem resultará significativamente nas avaliações internas e externas”, pontua.

No quesito equidade, Paula, que é uma mulher trans, acredita que sua presença na gestão contribui para um olhar humanizado, de diversidade e respeito dentro e fora da escola. “Exatamente por ter na direção da escola um corpo de mulher trans negra, rompe-se com todo e qualquer tipo de preconceito. Estou na EE Santa Rosa de Lima há 22 anos e meu propósito sempre foi de acolher bem todos/as/es, uma postura que reverberou na comunidade escolar e também local”, diz.

 

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Árvore dos combinados para melhorar a convivência, feita com estudantes da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, Capão Redondo, SP (Foto: acervo EE Santa Rosa de Lima)

A comunidade escolar, conforme afirma Jean Marcos Gregol Gwiazdecki, coordenador de pastoral do Colégio Marista Paranaense, Curitiba, PR, deve ser o foco de uma escola com clima organizacional positivo: “Esse senso de pertencimento que se exige ou se busca dentro de uma escola não é automático, nem individual. Então, eu preciso dar ferramentas para que a pessoa, além de pertencer ao ambiente, se sinta corresponsável por ele”.

Jean acredita que isso é possível com estratégias cotidianas e não necessariamente extraordinárias, como o simples fato de manter um canal de comunicação aberto com os atores escolares. “Demonstrar transparência nas decisões tomadas minimiza o impacto da dúvida e traz elementos que vão fortalecendo essa dimensão de comunidade”, defende. Ele também classifica a gestão e a coordenação como principais responsáveis por cuidar desses valores e transmitir a mensagem do que se espera culturalmente na escola: “Por isso, nós investimos em formações e cursos de liderança, para que seja possível oferecer feedback assertivo e escuta qualificada”.

Além disso, entre as iniciativas do Colégio Marista Paranaense, o coordenador destaca a criação de um time de clima com colegas de diversas áreas, na busca de um ambiente mais saudável para trabalhar. “Resgatamos o reconhecimento por tempo de casa e, para os aniversariantes, passamos a olhar com mais cuidado para funcionários que estão na limpeza, mexendo com máquinas, expostos ao sol, organizamos cafés e espalhamos caixinhas de sugestões por todos os setores”, lista Jean. “Quando há um ecossistema de mais interesse, com mais possibilidades para valorizar as potencialidades de cada um, aos poucos, conseguimos corrigir aquilo que não está muito bem”, conclui.

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Encontro de formação continuada no Colégio Marista Paranaense para conhecer as histórias de vida uns dos outros (Foto: acervo Colégio Marista Paranaense)

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