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Colunista

João Jonas Veiga Sobral

É professor de Língua Portuguesa e orientador educacional

Publicado em 27/07/2023

Mediação, o melhor caminho para educar

Assistir a um filme juntos é o mote para discutir uma determinada situação

Educar é exercício constante, tênue e persistente de mediação e de sabedoria.  Educadores (professores e familiares) estão passando por um momento difícil nesse processo de mediação, porque – no mundo moderno – há muitos outros agentes nas redes sociais que interagem com os jovens e com as crianças e lhes oferecem uma gama imensa de possibilidades e de desejos.


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Há quem diga que educar hoje seja mais difícil do que fora nas gerações anteriores. No entanto, sabe-se que educar sempre foi uma tarefa complexa e exaustiva, que exige do educador perseverança e porosidade. Sobretudo, porque não é razoável simplesmente transferir a educação recebida para os filhos e os alunos, como também não é sábio descartar a tradição, como se ela não estivesse presente nos valores de quem educa. 

No entanto, não é difícil concluir que os ensinamentos que precisamos manter, como legado civilizatório para o bom convívio social, são aqueles fundamentais relacionados aos princípios básicos e aos valores humanos inegociáveis. O mundo mudou e os jovens e as crianças não são mais os mesmos de ‘antigamente’. Independentemente das mudanças observadas no mundo, do estilo de vida e da quantidade de informações oferecidas, ainda é basilar e necessário ensiná-los a ser honestos, éticos, justos. A respeitar o outro e a sonhar com a vida que se deseja ter, para se sentir agente da própria existência.

Na educação moderna o que se propõe é uma mudança na maneira de ensinar na escola e em casa. Nesse novo paradigma, mediar é o melhor caminho. Assistir a um filme juntos como mote para discutir uma determinada situação, usar uma notícia que está tendo repercussão nas mídias, visitar exposições e instalações que discutem a sociedade ou canções cujas letras propõem algum questionamento podem ser um percurso interessante para conversar sobre os temas que possam ser exemplares ao processo educacional.

O filme A família Bélier é bom exemplo para que eduque o desejo de pais e filhos. Ele apresenta uma família de agricultores de uma cidadezinha do interior da França que vive da produção e da venda de queijos. Todos são surdos (pai, mãe e irmão caçula), com exceção de Paula, que administra parte dos negócios e é a intérprete de todos no convívio social e nas vendas. A garota tem um enorme talento para a música. Canta divinamente bem e por esse motivo é convidada pelo seu professor a prestar uma audição vocal para estudar em Paris. 


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Divididos entre os queijos e os sonhos, os pais serão obrigados a reavaliar a condução da educação da filha e o modo como vivem até então (o grau de dependência que criaram com Paula).  E ela precisa superar a angústia de abandonar a família para trilhar seu próprio caminho. A audição final com a presença dos pais, além de comovente, é uma oportunidade maravilhosa para aprender a reconhecer os desejos. 

As canções de Rita Lee também são provocações e ousadias que levaram a transformações na sociedade. Rita cantou como poucos o desejo: “E eu, para não ficar por baixo, resolvi botar as asas para fora (…) os incomodados que se incomodem”.  Provocou os anseios de quem deseja criar seu mundo: “Levava uma vida sossegada. Gostava de sombra e água fresca. Meu Deus quanto tempo eu passei sem saber. Foi quando meu pai me disse filha. Você é a ovelha negra da família. Agora é hora de você assumir e sumir”.  “Qual é a moral? Qual vai ser o final dessa história? Eu não tenho nada pra dizer, por isso digo. Que eu não tenho muito o que perder, por isso jogo. Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho.”

Evidentemente que nessa mediação educacional não se pode perder de vista que educar é frustrar e também provocar desejos. E o caminho entre os dois não é nada fácil. Há momentos em que ele se bifurca, uma vez que o pressuposto saudável na educação é apresentar ao jovem a vida como ela é. E isso exige afastar a tentação de proteger a cria em demasia ou se acautelar para liberá-la para os sustos da vida ou evitar que se enfie goela abaixo o modelo de vida do educador. Por incrível que pareça, o conflito é bem-vindo no processo educativo, porque ele impõe o diálogo (adequado a cada faixa etária), a análise de pontos de vista divergentes e a tentativa de algum ponto de conciliação.

A formação do caráter de um jovem bem mediada não passa, em hipótese alguma, na tentativa pretensiosa e onipotente de tentar evitar a frustração. Isso é impossível. Nem de frustrar de forma repressora como tentativa de privar o jovem do desejo para que ele sofra a duras penas para aprender a viver. A mediação educativa consistente é aquela que educa com sabedoria o desejo daquele que precisa enfrentar a vida e o mundo. E educar o desejo não é dizer o que desejar, mas ajudar a criança e o jovem a reconhecer seus desejos. O mais difícil talvez seja transmitir às crianças a coragem de desejar com sabedoria.  E sonhar com sabedoria é também ensinar que viver alucinadamente em torno apenas do desejo não é liberdade, é escravidão. E não viver alguns desejos nem sempre é precaução, pode ser covardia diante da vida.

Mediar a educação é talvez autorizar o educando (ou ensinar) a dizer sim e não para os momentos mais custosos e decisivos da vida em que não se pode vacilar. E também reforçar que não há na vida um desejo único, superior ou dominante. Mesmo quando a vida parece plena e alegre nunca estaremos protegidos do surgimento de desejos novos. Ajudar a reconhecer os desejos para abraçá-los ou para recusá-los, se não explica o sentido de ser e de estar no mundo, ajuda a afastar a sombra do sem-sentido.

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