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João Jonas Veiga Sobral

É professor de Língua Portuguesa e orientador educacional

Inteligência artificial exige escola pensante

Estudantes precisam de preparo para questionar, criar e propor frente às informações que chegam do mundo analógico e digital

inteligência artificial Foto: shutterstock

Luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, é subestimada e negligenciada nas escolas. Raramente consta na lista de adoção de leituras obrigatórias ou sugeridas. A narrativa surpreende pelo tom fantasioso e mágico bastante distante do empregado pelo mesmo autor em seus romances românticos de formação, como A moreninha.


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A fabulação se sustenta em um enredo metafórico e versa sobre as agruras de Simplício, um rapaz absurdamente míope, crédulo e sem filtro interpretativo. Aprendiz de feiticeiro, tem em uma luneta mágica sua pandora a lhe mostrar o mundo e sua luta incessante entre o bem, o mal e seus escrutínios. 

O herói da trama assim se define: “Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome. Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio. Sou míope; pior do que isso, duplamente míope – míope física e moralmente. 

Miopia física: — a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta. E por isso ando na cidade e não vejo as casas. 

Miopia moral: — sou sempre escravo das ideias dos outros; porque nunca pude ajustar duas ideias minhas. E por isso quando vou às galerias da Câmara temporária ou do Senado, sou consecutiva e decididamente a favor do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão. 

Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!… mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito”.

Suponho que a leitura se faz necessária porque estamos balançando ao sabor das informações que pululam nas mídias e nas redes sociais. E para agravar a deriva somos mais antenados do que reflexivos, mais caixa de ressonância do que curadores do próprio pensamento. “Sou sempre escravo das ideias dos outros; porque nunca pude ajustar duas ideias minhas.”


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Para sacudir mais o balançado e o mexido, surge a novidade preocupante da inteligência artificial com o ChatGPT, que é capaz de responder a questões de concursos, a provas escolares e universitárias e de produzir textos coerentes, coesos e adequados para questões acadêmicas, jurídicas, médicas, culturais e, mais ainda, até de imitar o estilo de renomados escritores.

Cogita-se que o ChatGPT, em breve, interagirá com a voz humana e oferecerá com rapidez impossível ao homem respostas às indagações da vida e do mundo. Por enquanto, consta que não cria e não inventa, mas se aproxima disso a depender das perguntas feitas e das possibilidades de articulação das informações oferecidas. É habilitado, inclusive, a oferecer resposta aparentemente crítica à sua própria condição de máquina: “Como uma máquina, eu não tenho capacidade de sentir desejos ou vontades”. A criatividade é uma característica humana e não pode ser atribuída a máquinas ou programas de computador. 

A máquina em questão pode ser muito útil à escola e extremamente perigosa também. E ameaçadora aos Simplícios da vida moderna — seres míopes, incapazes de produzir um pensamento autônomo ou autoral.

No entanto, uma escola arraiga a um projeto pedagógico que não explora a hipótese, a indagação, a elaboração, a imaginação, a fabricação, a idealização, a conclusão. E ainda faltam o contraste, a crítica, a validação, a contestação, a estimação, o julgamento, a formulação. Sem esquecer da invenção, montagem, projeção, prospecção, exame, questionamento, previsão, solução, e a proposição. Formará muitos Simplícios, incapazes de uma autonomia crítica. 

Por isso, o desespero bateu à porta e à aorta, e virou de cabeça para baixo o universo escolar. Muitas instituições de ensino estão buscando caminhos para proibir o inevitável, coibindo o plágio e a “cola” de estudantes e universitários que terão à disposição uma máquina generosa pronta a oferecer articulação de pensamento, elaboração de textos e respostas a um sem-número de indagações feitas nos bancos acadêmicos. Seria mais razoável, que os alunos se debruçassem sobre as informações e extraíssem algum olhar criativo.

Decerto, esse caminho não será simplório demais (para não escapar do campo semântico do nosso protagonista). A jornada dos jovens no mundo será espinhenta e árdua se não remodelarmos na comunidade escolar (pais, professores, pedagogos, diretores e governantes) a visão de escola, de conteúdo, de habilidades e de competências. Diante disso, precisamos estar atentos e fortes à viração dos ventos que sopram no mundo digital.

Não há mais lugar para uma escola baseada apenas em perguntas que remetem à articulação, à análise e à elaboração de respostas e pesquisas ao que já está posto. Não faz mais sentido insistir em uma rota única, em um samba de uma nota só que torna alheia a descoberta do mundo.

Formamos muitos Simplícios ao longo do tempo. É preciso oferecer condições aos estudantes para que eles encontrem situações-problema para inferir, criar, cogitar, propor, solucionar e tecer o trabalho fino com as informações que chegam do mundo analógico e digital. Assim sendo, o ChatGPT e suas variações serão ferramentas mais contributivas do que assustadoras.

Escute nosso episódio de podcast:

Por: João Jonas Veiga Sobral | 04/04/2023


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