O dia em que João Sayad surpreendeu a plateia

Em sua coluna, Fernando Almeida lembra quando o amigo Sayad afirmou em um seminário que a escola 'não serve' para nada

“Vim aqui para dizer aos senhores e às senhoras que a escola não serve para nada.” Foi com essa afirmação que João Sayad iniciou sua palestra de abertura em um seminário para deputados federais e senadores interessados ou ligados a comissões de educação. Eu tinha feito o convite a Sayad e, ao ouvir o começo de sua fala, levei um susto. Minha surpresa, e quase indignação, me fez pensar: “E agora? Como corrigir o tom geral que essa frase pode trazer?”.

Pessoalmente, conheci João Sayad em 2001, quando ele era secretário das Finanças da cidade de São Paulo, e eu, secretário da Educação na mesma gestão. Admirador e amigo, convidei-o, anos depois, para abrir o tal seminário com especialistas nacionais e internacionais sobre as grandes questões da educação, como a avaliação, formação de professores, investimentos e currículo.

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João Sayad

João Sayad faleceu ontem, 5. Foi ministro do Planejamento, economista e professor universitário (Foto: Cleones Ribeiro)

Depois da afirmação bombástica, Sayad continuou desenvolvendo argumentos para mostrar que a escola, de fato, não servia para nada:

Ela não serve para nada, assim como um filho não serve para nada, como uma boa colherada de doce de leite não serve para nada, como ouvir uma peça de Mozart não serve para nada”.

Propósitos

Na minha cabeça, então, caíram todas as fichas do entendimento do sentido da frase “a escola não serve para nada”. Talvez a maioria das instituições sociais sirvam para algo, como a agricultura, os sistemas viários, as redes de água, a indústria de sapatos, a família, as leis…Mas há também outras instituições que não são espaços de utilidade, mas ocasiões de fruição e ‘saboreamento’ da vida. As instituições e práticas que tratam da beleza, da ética, da amizade, do amor, da divagação, da imaginação, do andar sem rumo explorando uma bela cidade… são tantas. E elas não servem para nada.

Há também as vivências humanas que não servem para nada, como o riso solto, o humor inesperado, a amizade, a poesia recitada sem pressa, um texto de Guimarães Rosa relido, relido e relido, a cervejinha com as amigas, a indignação, o piquenique com a avó ou o ouvir cuidadoso do sabiá cantando. Não fazemos estas coisas para nos sentir melhor e depois ir para o trabalho mais animados. Não! Rimos pelo valor intrínseco do riso, lemos uma poesia pelo valor que ela tem em si, e não para demonstrar alguma erudição ou declamá-la num evento. Tais vivências, ou outras que sobretudo a escola proporciona, têm um valor em si. Não são instrumentos de maior produtividade ou de melhor desempenho social. Fazer esta distinção entre o caráter livre e finalístico da escola e seu compromisso com a praticidade de seus ensinamentos vem de longa data. Vejamos.

Sentido da convivência

Os gregos criaram o conceito de escola com esse nome – skholé (lazer, tempo de livre pensar, falar com calma com lentidão….) – para identificar a atividade de reflexão e dos diálogos necessários à compreensão da vida e de suas finalidades. As artes, os esportes, o diálogo, a argumentação, a fantasia, a ética, a felicidade, a amizade, a política, a liberdade, a verdade e a morte eram o sentido da convivência na skholé. Nem a guerra, nem o comércio.

Enquanto isso, o Império Romano e seu projeto civilizatório (coetâneos à civilização dos gregos) buscavam meios de organizar a vida e a política dos povos conquistados para a produção do poder, transformando ideias em dominação. Com seu poderio de armas, mas também com sua enorme sabedoria de colonizadores, o império precisava organizar os mitos, religiões, tecnologias, leis, valores, artes, a cidadania e o direito como formas de produção de todos os povos conquistados em torno de um projeto coeso e dominante. No bojo destas necessidades políticas e imperialistas, os romanos desenvolveram atividades culturais a partir de conceitos mais pragmáticos e de controle.

Para isso, criaram instituições em torno do conceito de Collegium. Collere, que em latim quer dizer colher, ajuntar, reunir.  Daí temos em nosso vocabulário as palavras colheita, colega, colher, coletivo, coleção, … e colégio. Instituições que ajuntam as principais (melhores, poderosas e convenientes) conquistas de vários povos e civilizações e as assumem como elementos de formação das gerações futuras. A Igreja Romana se tornaria também uma articuladora destas matrizes. A matriz presente no conceito de processo colegial atravessa o Império Romano indo à Idade Média e, mais adiante, ganhando novas formas e chegando até nós.

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A escola é, claramente, um lugar para desenvolver o pensamento livre, crítico, inovador, utópico, poético, esportivo, prazeroso …. Enquanto o colégio é o lugar da prática, do aprendizado útil, aplicável e de manipulação da natureza e das relações legais entre as pessoas. A escola não é, portanto, a mesma coisa que o colégio. Mas os dois se complementam.

A visão trazida pela educação escolar faz dialogar na cabeça e no coração das novas gerações os dois valores: os da reflexão sobre liberdade, autonomia, arte, ética, política (enquanto preocupação com o bem comum) e os valores da compreensão e utilização das diferentes formas de transformar e participar do mundo pelas ciências, tecnologias e intervenção no mundo do trabalho.

Garantir seu caráter de liberdade, valorização da existência, desenvolvimento do senso ético, autonomia, amizade, fruição das artes e busca do sentido da vida é dever da sociedade, dos educadores e do Estado. Então onde pode morar o problema?

Há interesses, grupos e ideologias que defendem a redução das escolas a meros colégios. Pior: advogam por limitar a função da educação ao seu caráter simplesmente utilitarista e preparador para o mercado de trabalho ou para o fugaz sucesso do empreendedorismo individual.

É essa disputa que presenciamos nos dias presente também na economia, na cultura, na religião e nas políticas de “despolitizações”, “homeschoolização” ou “uberização” da escola.

Esta disputa merece uma análise conceitual e política, exige muita reflexão para que seja enfrentada com grande capacidade de construção de modelos curriculares que atendem a uma economia mais justa e com alto grau de coesão social.

Concluo voltando ao João Sayad, que em seu discurso guardava uma visão humanista para a educação pela qual a escola não pode servir para nada que não seja para a cidadania e para a felicidade: todo o resto deve servir a seus fins.

*Fernando José de Almeida é professor de pós-graduação em educação: currículo na PUC-SP e foi secretário municipal de Educação da cidade de São Paulo (2001-2002).

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