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Alexandre Le Voci Sayad

Alexandre Le Voci Sayad é jornalista, educador e escritor. Mestre em inteligência artificial e ética pela PUC-SP e apresentador do Idade Mídia (Canal Futura)

Publicado em 03/05/2024

Como criar o hábito de estar bem informado

Se a leitura do rótulo de alimento se tornou rotina, cuidados básicos para checar se a informação é verídica ou falsa também pode ganhar força

Nos dias de hoje, dificilmente consumimos algum alimento industrializado sem ler o rótulo nutricional. Há 21 anos essa rotulagem tornou-se obrigatória no Brasil. Cada um presta atenção em pontos que mais interessam, como a presença de glúten, açúcar, gordura, corante ou algum ingrediente alérgico. Segundo a FDA, que fiscaliza essa questão nos Estados Unidos, 10 anos depois de implementada a obrigatoriedade, a população daquele país passou a consumir 50% menos gordura trans. 

Na verdade, ler o rótulo de alimentos tornou-se um hábito. Muitas vezes olhamos os rótulos sem perceber que desviamos a atenção para isso — mesmo que por alguns segundos. O mesmo pode se dizer em relação ao uso de cinto segurança no banco do passageiro dos veículos. Quem tem mais de 40 anos de idade pode se lembrar que essa atitude foi considerada por muito tempo como ‘opcional’. O sabor amargo e caro de uma lei nos fez perceber o quanto o uso do aparato de segurança é fundamental. Trata-se hoje de um gesto quase que automático: sentamos e o afivelamos.  

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Quando pensamos no nosso consumo diário de informação — perante à quantidade, imprecisão e diversidade de fontes — estamos também lidando com um hábito.  

Há mais de 10 anos, por exemplo, quando os produtos de jornalismo, guardiões da informação de qualidade, eram mais escassos e evidentes, o considerávamos uma ‘garantia’ — em outras palavras, líamos, escutávamos ou assistíamos ao jornal de preferência. Metade do percurso para nos sentirmos seguros estava percorrido, já que nos identificávamos e confiávamos naquele veículo e naqueles profissionais. 

A nem tão recente explosão da desinformação nos levou a hábitos menos saudáveis. É comum, por falta de tempo ou atenção, nos apegarmos à primeira informação que nos chega, via WhatsApp ou rede sociais. Seja porque o jornalismo se diluiu em milhões de canais e produtores de histórias em todo o mundo, ou talvez porque aquela notícia, com aquele enfoque, por menos verdade que seja, nos atrai mais. Os algoritmos de inteligência artificial, por sua vez, nos conhecem muito bem e são capazes de nos entregar, sem muito esforço, informações com as quais mais nos identificamos. É uma maneira de nos adequarmos ao que tem sido chamado de ‘economia da atenção’. 

O nó da desinformação mora justamente em como qualificar essa atenção. Quando precisávamos gastar alguma energia, tempo e dinheiro para correr atrás das notícias, buscávamos acurácia. Ninguém gostava de ser enganado; a relação de confiança entre veículo de informação e consumidor foi, de certa maneira, uma busca pela verdade. Conhecer a linha editorial de um jornal ou revista e saber também criticá-la quando necessário nos faziam leitores/espectadores ativos. 

educação midiática

As políticas públicas são necessárias para que as mídias digitais também sejam obrigadas a publicar seus ‘rótulos’ (Foto: Shutterstok)

Educação midiática

A passividade da chegada da informação em excesso em nossos celulares nos tornou obesos, se compararmos essa situação à tabela nutricional dos alimentos citados acima. Hoje não lemos os rótulos, mas nos guiamos apenas pela aparência e sabor. Se há excesso de açúcares, gorduras, corantes e outros produtos químicos, de imediato isso não importa. É fácil ser seduzido por um hambúrguer de fast food quando não sabemos do que eles são feitos. 

Por conta disso, os países que têm vencido a desinformação a atacam por todos os lados, como uma epidemia. Afinal, para compreendermos um rótulo nutricional, ou nos atentarmos em afivelar o cinto de segurança, é necessário algum letramento. Por isso, a educação midiática na escola tem sido a base para se construir um leitor de mundo preparado para este tempo. Mas não se resume a essa ação. 

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As políticas públicas são necessárias para que as mídias digitais também sejam obrigadas a publicar seus ‘rótulos’, como: evitar a publicação de notícias falsas e abusivas, explicitar as fontes de informação, apontar o uso de inteligência artificial na produção de conteúdo, barrar discurso de ódio e racismo, e creditar autores e outros veículos.  

O objetivo final desse cerco é transformar nossa relação com a informação um hábito saudável. Todos esses processos, que devem durar a vida toda, têm como objetivo desenvolver habilidades críticas para serem utilizadas no mais prosaico cotidiano. Tais como: 

  • Questionar conteúdos apelativos ou demasiadamente emocionais. 
  • Buscar a mesma notícia em outras fontes ou veículos. 
  • Evitar informações compartilhadas em redes sociais.  
  • Conhecer quem escreveu, assinou ou enviou a informação.   
  • Aprofundar-se mais sobre o tema em leituras complementares. 
  • Compreender a intencionalidade da informação. 
  • Não compartilhar quando não se tem certeza da acurácia da informação. 

Tal qual os primórdios da leitura dos rótulos nutricionais, percorrer os procedimentos acima pode não parecer algo rápido. Mas a criação de uma cultura do consumo de informações de qualidade é fundamental para o exercício da cidadania; tende a se tornar algo corriqueiro quando incorporada à rotina, tal qual afivelar o cinto de segurança.  

A metáfora entre o consumo de informação e a alimentação não é inédita, nem nova. Olhando sob outro ângulo, em Dieta da informação (ed. O’Reilly, 2020), o autor Clay Johnson defende que nosso consumo de notícias também deve se parecer com um prato colorido e saudável de comida, ou seja, apostarmos na diversidade de fontes e temas. Retomando a ideia da ‘economia da atenção’, sugiro apenas essa leitura após o término desse artigo.   

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