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Alexandre Le Voci Sayad

Alexandre Le Voci Sayad é jornalista, educador e escritor. Mestre em inteligência artificial e ética pela PUC-SP e apresentador do Idade Mídia (Canal Futura)

Publicado em 24/11/2022

Mauricio de Sousa, o educador transmidiático

O que o acadêmico estadunidense Henry Jenkins chamou de narrativas transmidiáticas, exemplificando o carnaval brasileiro como uma delas, é a força da Turma da Mônica hoje

UNESCO homenageia Mauricio - Foto de Fernando Motta 03 (1) Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio homenageou o desenhista no final de outubro Foto: Fernando Motta/Divulgação MSP Fernando Motta/Divulgação MSP

Quem presenciou o senhor de 86 anos sendo ovacionado com convicção por uma plateia de educadores no Theatro São Pedro, na capital paulista, não pode imaginar o duro que Mauricio de Sousa deu para chegar prestigiado a essa homenagem. A Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e a Cultura) no Brasil, a Cátedra de Leitura Unesco da PUC-Rio e a Academia Paulista de Letras concederam recentemente ao criador da Turma da Mônica um reconhecimento público como educador – algo de que ele mesmo parece não estar muito convencido. 

Abundam depoimentos de pessoas que se alfabetizaram lendo suas tirinhas. Esse motivo já seria suficiente para provar que ele deveria estar mais seguro. Afinal, quando começou a carreira, aos 17 anos, a alfabetização no Brasil ostentava índices bem piores que os de hoje; nem era considerada um ‘valor republicano’ para o desenvolvimento da nação. Foi por meio da educação informal – tirinhas nos jornais e os clássicos gibis – que crianças, jovens e adultos que não tiveram acesso à escola (longe de ser universal até então) aprenderam a ler e a escrever.  


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Para além de juntar vogais e consoantes, o letramento em um sentido amplo tornou-se possível a esse público graças à principal característica de Mauricio de Sousa: a conexão das histórias com situações cotidianas. Assim, os leitores do Brasil imergem nos mais diversos contextos sociais e a leitura ganha significado. Algo faz com que as antigas, mas ainda atuais, disputas acadêmicas sobre métodos de alfabetização pareçam ‘histórias para boi dormir’. 

Ele conta que, em seu processo de criação, tudo nasce na coloquialidade e síntese da linguagem verbal – que caiba nos balõezinhos de diálogo. A partir daí a história se desenvolve e o desenho ganha forma.

Entretanto, as auguras da vocação tradicionalista da educação do Brasil fizeram desse percurso da diversão até a aprendizagem algo tortuoso e recheado de preconceitos. A força e o desafio da aceitação de Mauricio de Sousa como um educador pelo universo acadêmico residem na mesma questão. O acento caipira do personagem de Chico Bento (que hoje se sabe, é fruto das raízes indígenas e portuguesas arcaicas do povo brasileiro) e as trocas de letras do Cebolinha – somados ao papel secundário atribuído aos gibis – fizeram com que sua entrada na escola sempre se desse pela porta dos fundos. A mesma Escola de Frankfurt, que relegou o papel da televisão e da cultura de massa ao chorume do capitalismo, atrasou a implementação de gibitecas como ponto de encontro dos estudantes nas escolas.  

Mesmo assim, a força implacável do tempo parece não ter envelhecido Mônica e sua gangue. Pelo contrário, olhando em perspectiva, é difícil hoje negar o elemento formativo da obra de Mauricio de Sousa. Não se pode ocultar que isso se deve a alguns fatores que derivam do fato de o autor ter criado uma estrutura profissional que acompanhou os passos de sua carreira. A Mauricio de Sousa Produções é um estúdio de criação de histórias, espetáculos teatrais, produtos licenciados, projetos multimídia, parques de diversão, séries de TV, filmes e livros.  


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Como resultado, as histórias e personagens não ficaram estagnados. As narrativas, que são ainda aprovadas uma a uma pelo criador, podem até nascer nos gibis. Mas continuam em séries da Netflix, longas-metragens, games, livros ou fanfics (histórias criadas pelos fãs que ganham vida na internet ou até em publicações oficiais). O que o acadêmico estadunidense Henry Jenkins chamou de narrativas transmidiáticas, exemplificando o carnaval brasileiro como uma delas, é a força da Turma da Mônica hoje. Mauricio acompanhou a evolução das linguagens digitais e a produção cultural das gerações de fãs de seus personagens, e assim não perdeu a oportunidade de navegar sempre nos mesmos mares de seu público.

Paralelamente, quando se mudam os tempos, mudam-se as vontades. A equipe do criador fez questão de abrir duas frentes de personagens relevantes para a manutenção de suas histórias no contemporâneo. Na primeira, ‘envelheceu’ Mônica e seus amigos e conseguiu um sucesso ainda maior de vendas com os mangás de Mônica Jovem e os toy arts animados especialmente para a internet. Na segunda, abriu espaço para a diversidade de causas e culturas, criando personagens que dialogam com um Brasil múltiplo e desigual. 

Estava mais que na hora de Mauricio de Sousa ser reconhecido como um educador – inclusive dentro da escola. Afinal, ele conecta o mundo dos estudantes ao conhecimento; capaz de criar um arco de aprendizagem poderoso, inclusive para a recomposição da aprendizagem pós-pandemia. Se as narrativas explodiram sua lógica em formas, linguagens e tecnologias, é importante que continuemos a acompanhá-las desde as histórias em quadrinhos nas revistas de papel, da Turma do Penadinho, por exemplo, até as latas de extrato de tomate do Jotalhão, o licenciamento mais antigo dos estúdios. 

Mauricio de Sousa é a personificação da força da indústria criativa de um país que enxerga na diversidade seu combustível de crescimento.

Esta coluna Midiática vai explorar mais profundamente aspectos do impacto da inteligência artificial na educação durante os próximos meses.

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