Capacidade de sentir e escolher difere o homem da tecnologia

Todas as vezes que ouço que devemos deixar nossos problemas pessoais de lado quando estamos trabalhando me indago como seria possível e sensato fazer isso.

Explico-me: desde a moda de fazer check-in no Facebook, as pessoas começaram a agir como se elas estivessem naquele lugar dentro da tela, e não onde realmente estão. Eu poderia divulgar algo do tipo “escrevendo para a revista Educação” com hashtags e afins, mas na real, estou bem aqui, sentada na minha cadeira e digitando e você está aí lendo. Qualquer outra maneira de nos apresentar e situar neste momento seria mera abstração. Afinal de contas, por mais que a tecnologia evolua, ainda não nos foi dada a competência de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo…


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O século 21 vem sendo reconhecido como o século do desenvolvimento humano, e isso não é à toa. Na medida em que a inteligência artificial avança, a vida se ajusta para nós não sermos engolidos pelas máquinas. Os computadores são capazes de transmitir um conteúdo com muito mais precisão e detalhamento que qualquer pessoa, e cada vez mais vem ocupando o lugar do homem. Contudo, avance a tecnologia o quanto quiser avançar, o ser humano será sempre imbatível em relação a ela num aspecto: na capacidade de sentir e de escolher.

homem e tecnologia
Foto: Pexels

A inteligência artificial pode, por exemplo, argumentar comigo que eu deveria usar uma outra palavra no lugar das que estou usando neste texto. Mas não terá argumento algum se eu disser: “gosto mais dessa e por isso vou usá-la”. Da mesma forma, quando falamos em competências socioemocionais, referimo-nos a potencialidades exclusivamente humanas…

Anotem isso: o mais audacioso que temos a fazer nos tempos atuais é justamente sermos humanos. E, para isso, precisamos nos despedir de vez do jeito de ser e pensar de décadas atrás que enaltecia as aparências em detrimento da saúde emocional e psicológica.

Por excelência, enquanto humanos, somos seres offline e íntegros, inteiros. Podemos até fingir que não temos problema algum, mas dentro de nós sabemos bem que isso não é real e, para piorar, esta situação nos faria desonestos com nós mesmos.

A gente sente, ressente, sofre, se magoa, se alegra, sente tristeza e saudade e isso tudo faz parte de nós. Inútil mascarar. O grande “X” da questão não é deixar os problemas e respectivos sentimentos que temos fora do trabalho, mas saber equilibrar com sensatez a vida pessoal e a vida profissional. Balancear essa equação não é esconder, abafar ou fingir que certas coisas não existem. Ao contrário, é demonstrar humanidade, sensibilidade e até vulnerabilidade quando for o caso. Isso é, a meu ver, questão de linguagem humana. Se eu escrevo aqui e vocês leem aí, é porque falamos a mesma língua: o português. Se queremos mostrar compaixão, empatia, sensibilidade e sabedoria para com as situações da vida, devemos nos mostrar pertencentes a ela. Eu sinto, você sente. Eu choro, você chora também. Assim é a linguagem humana. Não há razão para esconder problemas e sentimentos se todos os têm. Precisamos é mostrar que sabemos lidar com isso.

Enquanto educadores, somos referência das coisas que não aprendemos em apostilas, mas na vida: humanos sofrem às vezes, mas está tudo bem… Faz parte do jogo e a vida continua valendo a pena a despeito disso.


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Fazer a vida valer a pena é a meu ver a tarefa mais preciosa que precisamos aprender, e só podemos ensinar e aprender isso convivendo e sendo nós mesmos por inteiro, offline.

Não importa se nossa especialização é matemática, física, geografia ou gramática. Antes disso somos, desde sempre, humanos. Evitar demonstrar sentimentos é desperdiçar a oportunidade de mostrar aos outros que eles podem confiar em nós.

Sim. Mostrarmos humanos é um exercício de força e confiabilidade (afinal, quem é capaz de esconder sentimentos é capaz de esconder muitas outras coisas não é mesmo?). A convivência entre adultos e crianças em sala de aula é um prato cheio para isso. E, me desculpem a sinceridade, mas o que faz a vida valer a pena é, acima de qualquer outra coisa, a nossa capacidade de sermos o melhor de nós diante dela, administrando-nos e compreendendo-nos e não escondendo-nos.

Queiram ou não, professores e educadores são espelhos humanos onde os alunos se refletirão. E, cabe a nós, decidir se seremos offline por excelência ou se nos esconderemos no modo online, fingindo ser possível separar nossos sentimentos e pensamentos da nossa presença.

Jung, muito sábio, nos deu um conselho: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana”. E, enquanto espelhos humanos, é bom lembrarmos disso.

*Raquel Alves é filha do educador Rubem Alves, foi presidente do Instituto Rubem Alves. É escritora, palestrante e fundadora da Arquitetura do Sensível

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