ARTIGO

Olhar pedagógico

“O estudo tem sido deixado de lado nas escolas. Isso preocupa”

Temos que ensinar no ensino superior o que é uma bicicleta e não a andar nela. É preciso retomar o ensino dos conteúdos nas instituições escolares, alerta o professor universitário, Geder Parzianello

Publicado em 01/02/2021

por Redação revista Educação

Por Geder Parzianello*: Há uma contradição enorme no sistema educacional brasileiro e que fica sempre muito evidente quando se aproximam os períodos de processos seletivos para ingresso nas universidades públicas e privadas. Refiro-me à ênfase que esses processos, salvo raras exceções, têm dado a aspectos conteudistas da aprendizagem. A contradição está no fato de que se tem investido na consciência educacional em torno de pedagogias que sejam menos conteudistas, e que não centrem seu foco na memorização de dados e no conhecimento formal, como a escola fez ao longo de séculos. Só que o mundo da vida não corresponde ao mundo dos sistemas, como ensina Habermas.

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A defesa de educadores tem sido, quase unanimemente, por uma educação cujo foco do ensino e aprendizagem sejam as competências dos estudantes em estabelecer relações, aplicar o conhecimento e conseguir construir análises com criatividade, inteligência e razoável desafio lógico. Capaz de ultrapassar a mera dedução ou indução como formas de raciocínio. Ocorre que os exames aplicados todos os anos têm feito muitos poucos avanços nesse sentido.

E nisso reside uma absoluta contradição, porque se as escolas devem desenvolver suas propostas de ensino e mobilizar professores para um ensino diferente do tradicional e que desenvolva, de fato, capacidades, habilidades cognitivas e relacionais, e não o conteúdo, o ingresso nas universidades não deveria continuar contaminado com uma perspectiva ainda conteudista e estacionada na raiz do projeto iluminista.

estudo escolar

“Estamos, talvez, concorrendo para a institucionalização de um processo ainda mais excludente, mesmo que sob prerrogativa de não sê-lo” (foto: Envato Elements)

Escola, mundo dentro e mundo fora

Não sei se faz muito sentido que a escola tenha que se adequar a novas pedagogias e a propostas menos conteudistas se a promoção dos sujeitos, na esfera social, continua se dando por base no conteúdo e no conhecimento formal e se essa mudança ainda tem dado tão lentos sinais, sacrificando gerações. Porque não é apenas o processo de acesso à educação superior que ainda se mantém organizado formalmente nos padrões clássicos de perguntas e respostas que buscam aferir o conhecimento objetivo sobre dados. Muitos espaços da vida cotidiana ainda continuam a exigir dos candidatos, em processos de seleção, que eles comprovam ou evidenciem seu conhecimento objetivo, demonstrem saberes, dominem dados formais.

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Poucas são as experiências inovadoras fora da escola e já estamos há pelo menos cinco longas décadas nesse discurso em torno do ensino por competências e propostas construtivistas que dissociam ainda mais a escola do mundo fora dela.

Claro que o papel da escola não é apenas formar pessoas para o mundo do trabalho. Mas também não pode servir de instrumento para excluí-las. O que reside nesse debate é uma questão central na vida de todos os jovens estudantes, que é a possibilidade real de se beneficiarem em suas vidas práticas com o conhecimento que as escolas lhes ofereçam. De nada adianta uma escola que se esvazie em conteúdo, que se distancie do ensino formal, que centre sua abordagem em aspectos sedutores da pedagogia e promova o discurso idealizado da educação se estes estudantes, por meio dessa educação, saiam fracos.

Pés na realidade

O fato é que estamos, talvez, concorrendo para a institucionalização de um processo ainda mais excludente, mesmo que sob prerrogativa de não sê-lo. Por isso sua contrariedade parece tão incômoda a quem enxerga que as novas pedagogias em quase nada podem auxiliar a quem se lance ao enfrentamento das reais condições de disputa por oportunidades no mundo do trabalho e mesmo da educação continuada.

É importante que os estudantes saibam. Que conheçam. Não apenas que tenham habilidades ou competências mais específicas no estabelecimento de suas inter-relações ou no desenvolvimento de suas outras formas de inteligência.

Tem sido decepcionante e preocupante ver que o estudo tem sido deixado de lado, a preocupação com os saberes, a habilidade de estudar e de conhecer e até de pesquisar, o desconhecimento da própria língua, a pouca familiaridade com a leitura, com a matemática, com as hermenêuticas possíveis e com os dados, sejam históricos, formais, ou mesmos os mais elementares.

Estamos tendo que ensinar no ensino superior o que é uma bicicleta e não a andar nela.

Se é verdade que formamos médicos sem que os estudantes se sintam seguros em medicina, engenheiros sem suficiente domínio da matemática e ou advogados que sequer conseguem aprovar num exame da OAB, não é menos verdade que em parte dessa deficiência reside a evidência de que estamos recebendo, a cada ano, estudantes com menor domínio de operações básicas de cálculo, que chegam ao ensino superior sem saber onde fica um citoplasma, que não sabem escrever uma petição mesmo tendo um modelo. Então, ficamos a ter que resolver suprir o básico: ensinar primeiro o que é uma bicicleta e só depois, a como usá-la. E não é este o papel de uma universidade.

A quem interessa, afinal, que nossos estudantes aprendam e saibam cada vez menos?

*Geder Parzianello é professor da Universidade Federal do Pampa, pós-doutorado pela Universität Paderborn, lecionou na Universität zu Köln.

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Autor

Redação revista Educação


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