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Para os filhos dos filhos dos nossos filhos

"Escrever sobre o ofício de educar é sempre um exercício precário" Confira aqui o segundo texto inédito de José Pacheco.

Publicado em 10/09/2011

por Redação revista Educação




Não se creia tratar-se de uma obsessão o regresso ao tema. Da primeira vez, foi o olhar do Marcos que me suscitou uma reflexão sobre o ritual da “passagem de ano”. Agora, serei reincidente porque, mais que divagar sobre o tempo e a sua medida, pretendo evocar uma previsão lida algures. O seu autor profetizava que “
a idade da Educação

” chegaria em meados do século XXI.

Como vemos, não é em vão que alimentamos a esperança. Só custará aceitar que a minha geração já por cá não ande, nesse tempo em que a Educação será, finalmente, encarada como assunto sério. O tempo! Sempre o tempo! À escala do cosmos, o tempo de passar não é mais que um rasto de vaga-lume, ou estrela cadente. E mesmo que pensemos que, quanto mais efémeras, mais belas são as vidas, a poesia de um precoce perecer não oculta uma trágica realidade: até meados deste século, ainda serão muitas as gerações a quem será negada a Educação que os seres humanos mais jovens merecem e que é possível, se, já hoje, quisermos que seja.

Escrever sobre o ofício de educar é sempre um exercício precário. Por mais que o desejo desenhe possíveis futuros, quando escrevo para a Alice, ou para o Marcos, estou a escrever para os filhos dos filhos dos nossos filhos. Ser esperançoso também é isto: escrever para os netos, na apaziguadora certeza de que eles serão os nossos olhos e as nossas mãos, quando os seus filhos forem, finalmente, as crianças felizes e sábias que eu desejaria todas as crianças hoje fossem.

O que nos resta como deliberação é o primeiro passo de cada dia. É acolher cada afago do destino como primeiro e derradeiro. Nada mais. E encarar a fealdade dos dias como possibilidade do belo. Senão, como conseguiríamos suportar desmandos engendrados pelos sistemas educativos que ainda temos? Mas a paciência já não é virtude bastante. É preciso mais: não esperar. E não me move apenas o baixo rendimento académico dos alunos, bem expresso e documentado em recentes estudos. Quem conseguirá explicar porque, séculos volvidos sobre Copérnico e Leonardo da Vinci, metade da população dos Estados Unidos ainda creia que é o Sol que gira em volta da Terra? Como poderemos suportar a ideia de que uma professora acredite que Deus habita a Lua e que, por essa razão, advirta os seus alunos de que os homens nunca poderiam lá ter estado, e que os astronautas eram bonecos animados? E quase nos faz morrer de desgosto o estudo que revelou que metade das crianças japonesas nunca viram um amanhecer ou um pôr-do-sol.

Disse Kalil Gibran, “
Vivemos somente para descobrir a beleza. Tudo o mais é uma forma de espera

“. Foi-me dado viver num tempo de espera. A Alice, o Marcos, outras crianças, e adultos que não esqueceram as crianças que foram, são quem me guia na descoberta de beleza. Em todas as gerações há seres avisados, que não se deixam corroer pelos ácidos de tempos sombrios, seres que arejam instituições, abrindo janelas por onde penetram ventos de mudança. Nas apáticas escolas que ainda vamos tendo (e merecendo?), a “Idade da Educação” já acontece, em espaços intersticiais, apenas acessíveis a olhares que se não deixaram corromper. Todos os dias me chegam notícias de discretos prodígios. No segredo das suas salas, há professores que não esperam, que recriam.

Pedagogia é arte. O ofício do educador é meticuloso, trabalho de precisão, como o é o dos ourives. Mas um trabalho que não admite o erro, porque uma criança é um bem mais precioso que o ouro. Se o educador se recusar a reflectir sobre o seu ofício, se ousar não o recriar – o que seria de esperar de um trabalhador intelectual – que se abstenha, no mínimo, de se aventurar em modas. Continue fazendo o que uma tradição sem nexo e uma cultura profissional falida lhe ordenam que faça. A não-directividade ingénua, o voluntarismo, o improviso são tão maléficos como o conservadorismo pedagógico que leva à reprodução de práticas escolares obsoletas, nos tempos de espera.

Alivia esta espera o saber que a Idade da Educação chegará no tempo dos filhos dos filhos dos nossos filhos. Não será tarde demais. O Abée Pierre diz-nos que “
a vida não é mais que um pouco de tempo que nos é dado para, se quisermos, aprendermos a amar no sempre para além do tempo

“. Nisso acredito. E, se me é inacessível adivinhar como será o “tempo da Educação”, imagino o que desejo que seja. Autorizo que a seta do olhar do sonho penetre num tempo além do tempo do mundo possível. Porfiarei no precário exercício de escrita, sem acalentar outra intenção que não a de dizer o que é preciso que seja dito, neste tempo de espera. Procuro desenvencilhar-me do fardo do ontem, certo de que o futuro não é mais que o “agora” que está por vir. Como o menino índio de uma fotografia do Sebastião Salgado (balançando numa rede, num gostoso fim de tarde sem relógio, nem agenda), entrarei em cada portal de Primavera, envolvido pelo ritmo das marés. Sentir-me-ei envelhecer, como uma árvore no jardim da escola, sem ganhar raízes, por saber que neste mundo nada é nosso. Mas sabendo, também, que tudo será possível no tempo dos filhos dos filhos dos nossos filhos.


Leia também o primeiro texto publicado da série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:




Tempus fugit

Autor

Redação revista Educação


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