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Raquel Alves

Filha do educador Rubem Alves, foi presidente do Instituto Rubem Alves. É escritora, palestrante e fundadora da Arquitetura do Sensível

Publicado em 30/08/2022

Como ter empatia se cada um carrega os seus sentimentos?

Parece que ter empatia é uma tarefa complicada, mas não ter empatia causa muitos aborrecimentos, tanto para os outros quanto para nós

Empatia é uma palavra muito dita e apreciada hoje em dia, mas um tanto difícil de ser aplicada. Como fazer para efetivamente nos colocarmos no lugar do outro se na vida sentimos cada um seu próprio sentimento? 

Explico: numa cena feliz todos os envolvidos sentem alegria. Mas cada um sente a sua. A forma como um sente é diferente da forma que o outro sente. Se alguém que amamos muito perde um filho, por exemplo, nós sofremos junto com essa pessoa. Mas a dor que ela sente é exclusivamente dela, e por mais que a gente compartilhe o momento de dor, o sentimento é de certa forma intransferível. Não podemos entrar dentro do peito de ninguém para sentir na nossa pele o sentimento exato do outro. A dor que a pessoa sente pela perda do filho é só dela. Nesse caso, compete a nós ficar ao lado da pessoa sentindo a nossa própria dor. 

Sendo assim, como ter empatia se cada um carrega os seus sentimentos? Como nos colocamos um no lugar do outro? Parece que ter empatia é uma tarefa complicada, mas não ter empatia causa muitos aborrecimentos, tanto para os outros quanto para nós. O esforço vale a pena.


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Antes de mais nada, precisamos avaliar que a tendência atual é de oferecer muitas fórmulas e receitas para resolver as mazelas humanas. Mas o ser humano não veio com manual de instruções… Somos um quebra-cabeça de infinitas peças que temos que montar sozinhos. E cada um tem que montar o seu próprio – com ajuda e em outros momentos sozinhos, e nenhum é igual ao outro. A partir daí começamos a perceber a necessidade em desenvolver nossa destreza de observar tanto as pessoas quanto as situações que nos cercam para tratar de nos aprimorar no exercício da empatia. 

É sabido que a forma mais inteligente de começar a montar um quebra-cabeça é separando as peças que têm lados retos e fechar a borda para só depois começar a preencher o meio. Tanto faz se é um quebra-cabeça grande ou pequeno, com muitas ou poucas peças. A lógica de montagem é a mesma para todos. 

De certa forma somos assim também: todos diferentes, com identidades e personalidades particulares, mas com pontos em comum. 

Portanto, ao observar algumas coisas, todos podemos ter empatia. Não é difícil como parece, a priori. A vida de certa forma tem que fazer sentido para nós. Aquilo que não faz sentido, não desperta nosso interesse. Até fazemos uma força danada para manter nossa atenção, mas nos perdemos no caminho. Nossa imaginação voa e rapidamente nos distraímos, mesmo sabendo que mostrar desinteresse pelo assunto que o outro está nos apresentando não é nada gentil da nossa parte. Nos sentimos mal por não conseguir interagir positivamente com o outro, que por sua vez, se sente desvalorizado ou até mesmo desrespeitado.

Em primeiro lugar, para se criar um campo propício para a empatia, precisamos estar dentro de uma situação que faça sentido para nós. 

É como ir ao supermercado: colocamos no carrinho de compras apenas aquilo que precisamos como alimentos, produtos de higiene e limpeza e etc. Pegamos também aquilo que não é necessário, mas que nos dá prazer como vinho, queijos, castanhas… Em nenhuma circunstância compraremos algo que não tiver utilidade e nem nos proporcione prazer. Embora a gente nem sempre perceba, essa é uma regrinha básica daquilo que consumimos com o corpo e com o intelecto: assim como uma compra de supermercado, nosso corpo absorve (aprende, se interessa por, desperta desejo por uma determinada coisa) apenas dois tipos de situação: aquelas que nos dão ferramentas para viver e/ou aquelas que nos dão prazer. 

A primeira regra para despertar interesse é pensar se aquilo que está sendo dito ou feito faz sentido para a vida das pessoas. Vai acrescentar algum conteúdo que ajude a pessoa a viver melhor? Vai gerar algum tipo de prazer? Um bom exemplo disso são as fórmulas de seno e cosseno ensinadas nas escolas. Não servem para nada e não dão prazer. A maioria das pessoas esquece. Pessoas que ficam falando sobre si o tempo todo ou que falam de assuntos que não dizem respeito à nossa vida, por exemplo, tendem a sentir que os outros não têm empatia com elas. Antes de reclamarmos do fato dos outros não terem interesse por nós, precisamos avaliar se o que estamos dizendo ou oferecendo para eles vale a pena ou não. Se tem algum fundamento para a vida delas, se vai de fato acrescentar algum conteúdo ou mesmo se vai dar prazer.

Você pode pensar que é falta de educação não ficar atento ao outro o tempo todo, mas nenhum corpo consegue comer quando está sem fome ou quando a comida está ruim. Comida é alimento para o estômago e palavras são alimento para a alma. 

A alma precisa ter vontade de comer para que a empatia aconteça. É preciso avaliar se o que estamos proporcionando de fato alimenta a alma dos outros. 

Mas há um outro lado da empatia muito importante de ser observado. Nessa era digital, onde todos tem o mundo na palma da mão, as pessoas têm a tendência de não esperar tempo suficiente para se abrir a alguma situação nova. Antes mesmo de avaliar se o mundo afora pode lhes acrescentar conteúdo ou promover bons sentimentos, os indivíduos escapam do risco de não encontrar nada de bom na vida e mergulham em seus celulares, tablets e notebooks. Isso pode ser um desperdício, pois a tecnologia está conosco o tempo todo e pode nos promover informação e prazer a hora que quisermos, mas com a vida não é bem assim. As pessoas, oportunidades e situações passam e acabam. O exercício de observar a vida vale a pena. Tanto para nós quanto para os outros. Distrair-se no celular enquanto alguém nos fala é o mesmo que dizer: “não estou interessado em você”. Nessa situação, que tal pensar na mesma situação ao contrário? Enquanto nós falamos, os outros nos ignoram? Nem é preciso pensar muito para concluir que isso é muito desagradável, não é mesmo?

Pare para pensar na sua vida… Sua qualidade de vida não está nos momentos que ficou sozinho atrás das mais variadas telas e tecnologias. 

Nossa qualidade de vida está intimamente ligada às nossas trocas humanas, aos nossos afetos, à nossa capacidade de sentir, pensar e nos emocionar. A empatia então, pode ser entendida como uma porta que nos abre para um mundo que faz valer a pena o nosso viver… Que tal tentar?

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