A cidadania global de Paulo Freire e Edgar Morin

Centenário Freire e Morin é tema do Cel.Lep Talks 2021. No segundo e último dia, palestrantes destacam a necessidade de religar diferentes pensamentos, praticar a autonomia reflexiva e falam sobre a convergência entre os dois pensadores

Na segunda manhã de palestras do Cel.Lep Talks Centenário Freire e Morin: pensamentos convergentes numa relação dialógica com educadores, os três painéis destacaram a universalidade dos dois pensadores.

Gratuito, online e com certificado, o evento foi organizado pelo Cel.Lep e teve curadoria da Revista Educação. Silvia Fiorese, diretora acadêmica do Cel.Lep, abriu o evento citando Paulo Freire: “Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível. O mundo não é, ele está sendo”. Em seguida, chamou o professor doutor Fernando José de Almeida, da PUC-SP, para fazer a mediação. Para ele, recordar Freire e Morin significa perceber que, mesmo quando há tensões políticas, econômicas e sociais, também há soluções, vindas destas pessoas que vivenciam cotidianamente estas tensões.

Leia: A liberdade segundo Freire e Morin, debatida por especialistas


“Temos de saber o que fomos e o que somos, para sabermos o que seremos.” – Paulo Freire


Painéis Cel.Lep Talks

O painel de Izabel Petraglia, doutora em educação e pós-doutora pelo Centro Edgar Morin, da EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales, da Sorbonne), teve o título Edgar Morin e o pensamento complexo.

Professora universitária e autora de livros como Edgar Morin: a educação e a complexidade do ser e do saber (ed. Vozes, 13ª edição, 2020), Izabel destacou que o autor está em franca expansão. Falou sobre a biografia e as contribuições para a educação, privilegiando toda a extensão de sua vida e obra. O parto difícil e a morte da sua mãe aos nove anos de idade foram fundamentais para a construção da interdisciplinaridade do seu pensamento.

Na juventude, filia-se ao Partido Comunista francês e, como correspondente de jornal na Alemanha, escreve um livro crítico e se posiciona contra qualquer tipo de tirania. Contudo, após ser expulso do partido, ingressa na vida acadêmica e estuda sociologia do cinema, assunto sobre o qual publicou vários livros. Na sétima arte, ele dirigiu Filme de Verão (1961). Desta forma, as faces militante e intelectual aparecem em seus escritos.

Aliás, dentre sua vasta obra – aproximadamente 100 livros -, vale ressaltar os seis volumes de O método, no qual a epistemologia da complexidade ganha destaque.

Cel.Lep Talks Freire e Morin

Roda dialógica entre os participantes no segundo dia do Cel.Lep Talks

“Morin propõe desde sempre a religação dos diferentes tipos de pensamento. Entende que os saberes não são hierárquicos. Eles são importantes para a construção do sujeito multidimensional”, explica Izabel Petraglia.

Também destaca a ideia de ética para o autor: o ser humano aprende e se constitui num sujeito sempre em construção da sua autoética. Sobre o pensamento complexo, destaca que ordem, desordem, interação e reorganização constituem a base para suas reflexões. “O que não se regenera, degenera”, diz Morin.

Quando indagada sobre o risco do mal entendimento do pensamento complexo, sobretudo para leitores iniciantes, Izabel afirma que, na complexidade, o todo é tão importante quanto a parte, ou seja, o pensamento de Morin busca enfrentar a fragmentação e ultrapassá-la, incorporando também o pensamento linear.

Leia: Edgar Morin e os saberes não curriculares

Na prática da sala de aula, para que a epistemologia de Morin seja compreendida, é preciso estar atento à formação do professor, tendo em vista que a prática da transdisciplinaridade é religação, ir além das disciplinas. Nesse sentido, Morin destaca que é importante separar para depois devolver ao contexto e faça sentido. Especificamente para professores de idioma, Izabel indica a obra A cabeça bem feita como uma boa forma de conhecer Morin.

Ela finaliza sua argumentação dizendo que, se conseguirmos aproveitar as brechas, é possível construir uma cidadania planetária.

Artes como escolas da vida

Em seguida, Fernando Forastieri, gerente acadêmico do Cel.Lep, abordou o tema O papel da interculturalidade e interdisciplinaridade no ensino de inglês. Fernando Forastieri é formado em letras e atua no ensino de inglês há mais de 20 anos. Trabalha no Cel.Lep desde 2008, tendo atuado como professor, coordenador pedagógico, gerente de unidade e membro da equipe de capacitação docente.

Ele destaca que as artes devem ser entendidas como escolas de vida. Exemplifica com a pintura Aristóteles e Homero (1653), do pintor holandês Rembrandt, e a ideia de que tudo se relaciona e dialoga. Com a exposição de outras obras, afirma que elas vão muito além das técnicas: elas estabelecem socialidades e diálogos sobre temas variados.

Da mesma forma, no ambiente de sala de aula, Forastieri levanta se a prática é mais voltada à técnica ou à construção conjunta do conhecimento. Retoma Morin ao afirmar que não se deve separar os objetos e disciplinas.

De acordo com Freire, “Ditamos ideias. Não trocamos ideias. Discursamos aulas. Não debatemos ou discutimos temas. Trabalhamos sobre o educando. Não trabalhamos com ele. Impondo-lhes uma ordem que ele não adere, mas se acomoda. Não lhe propiciamos meios para o pensar autêntico, porque recendo as fórmulas que lhe damos, simplesmente as guarda. Não as incorpora porque incorporação é o resultado de busca de algo que exige, de quem o tenta, esforço de recriação e de procura. Exige reinvenção.”

Segundo Forastieri, a proposta pedagógica dos dois autores visa, sobretudo, resgatar a autonomia reflexiva, maximizar a percepção de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, valorizar a compreensão da irmandade humana, reconhecer a riqueza das diferentes culturas e modos de pensar e potencializar o diálogo.

Sobre o ensino de inglês, ele destaca que é possível os alunos transitarem em diferentes áreas do conhecimento a partir de um material lúdico. Desta forma, tornam-se cidadãos críticos do mundo.

Um olhar para a paz

Por fim, Fernando José de Almeida, professor de pós-graduação na PUC-SP, encerrou o Cel.Lep Talks com o tema Freire e Morin. Almeida foi vice-reitor acadêmico da PUC-SP e secretário municipal de Educação da cidade de São Paulo (2001-2002). Em resumo, também participou do programa de formação de mestres e doutores em educação em Moçambique entre 1999 e 2006.

Para abordar Freire e Morin, Fernando citou alguns contemporâneos, por exemplo, Isaac Azimov (1920-1992), Nelson Mandela (1918-2013), José Saramago (1922-2010), Clarice Lispector (1920-1977) e o Papa Francisco (1936). Nascidos entre as duas grandes guerras mundiais, Morin e Freire foram homens cujo pensamento estava voltado para o entendimento do mundo, dos homens e da natureza.

A violência das guerras marcou a trajetória de ambos os autores e a busca pela paz. De acordo com Almeida, no caso do Brasil contemporâneo, a opressão contra as minorias precisa ser debatida de forma urgente se almejamos a paz.

Segundo Almeida, um modo de manter a cabeça aberta é a cultura e a educação, mas ambas precisam ser alimentadas pela democracia e pela política. Caso contrário, podem virar instrumentos de controle e manipulação social.

Para que os pensamentos de Morin e Freire sejam praticados, seria preciso construir um currículo para o Brasil, “que representasse a condição de criarmos uma nova sociedade baseada na liberdade, na justiça, na coesão social, no respeito às diferenças, no trato histórico com as heranças perversas que deixamos”, sintetiza.

A escola deve formar cidadãos que não sejam clientes, mas sim participantes na vida da cidade e do país. Ou seja, precisa ser o momento de organicidade, de articulação das múltiplas vivências.

Ao final do debate, os palestrantes do Cel.Lep Talks destacaram que é preciso manter a esperança no sentido freireano, amparada pela utopia e pela resistência. Em síntese, resistir ao obscurantismo para pensar na construção de um mundo melhor.

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