O folclore brasileiro para além de agosto

É preciso que a gente se relacione com o folclore, com as nossas histórias ao longo do tempo. Acreditar nelas nos faz mais fortes, como ficou Lobato ao descobrir os muitos “sacizes” Brasil afora

Chegou agosto e como sempre, as escolas brasileiras puxam o cordão que nos liga ao folclore brasileiro. Mais um ano, novamente, as crianças vão ouvir sobre o Saci, a Mula-sem-cabeça, o Boto e a Iara. Vão conhecer as mesmas histórias, talvez construir fantasias representando esses personagens e quando passar o dia 22 – data oficial que celebra o folclore brasileiro –, o assunto acabará e essas criaturas maravilhosas voltarão para as páginas dos livros e lá permanecerão até o ano que vem.

Se por um lado a gente comemora que o folclore brasileiro tem um dia – e um mês – dedicado exclusivamente a ele, também lamentamos que seja só isso, dada a riqueza e as maravilhas que existem embaixo desse guarda-chuva imenso, onde cabem histórias incríveis que não deixam nada a desejar àquelas que estão nos games, nas séries, nas HQs e em todos os produtos culturais que as nossas crianças tomam contato todos os dias. É uma pena que os nossos personagens não estejam na linha de frente do nosso imaginário e que continuemos a sonhar com os heróis da Marvel, Disney e que tais, relegando os nossos tesouros às estantes empoeiradas de uma biblioteca qualquer.

Leia: Ficção, folclore e fake news

folclore brasileiro

Januária Alves é autora do Abecedário de personagens do folclore brasileiro (imagem: reprodução Nono Estúdio)

Lobato e seu cuidado com o folclore brasileiro

A maior parte dos leitores brasileiros foi apresentado ao folclore pelos livros de Monteiro Lobato, que era um fervoroso admirador da cultura brasileira. O hábito do brasileiro valorizar mais a cultura estrangeira do que a nossa sempre preocupou o escritor, a tal ponto que sugeriu a incorporação de elementos do folclore nacional aos cursos do Liceu de Artes e Ofícios, instituição que formava os artistas daquele tempo. Por ele, as estátuas de gnomos, ninfas, faunos e anões vindos diretamente das tradições europeias para enfeitar o Jardim da Luz, em São Paulo, deveriam ser substituídas pelos Sacis, Caiporas, Iaras e outros seres cultivados pela imaginação do povo brasileiro. Não foi bem-sucedido em seu intento, mas em 1918 lançou um livro que marcou um encontro definitivo dos brasileiros com o nosso folclore: O Saci-Pererê: resultado de um inquérito.

O ano era 1917 e o mundo assistia horrorizado à Primeira Guerra Mundial. Segundo Lobato: “A carniçaria europeia, no apogeu, refletia por cá o clarão dos incêndios, os estouros de obuses (…) Um engulho. Foi quando surgiu o Saci, e veio com suas diabruras aliviar-nos do pesadelo. (… ) Bendito sejas! Está perdoado de muitas travessuras por haveres interrompido, por um momento, em nossa imaginação, a hedionda sessão permanente de horror…”.

Lobato se referia à pesquisa nacional que empreendera no Estadinho – edição vespertina do jornal O Estado de São Paulo – solicitando que os leitores enviassem suas histórias sobre o Saci-Pererê. Aos artistas plásticos da época, solicitou que enviassem obras inspiradas no moleque de uma perna só. Os trabalhos vencedores ilustraram as páginas do livro, que conta com milhares de histórias de brasileiros dos quatro cantos do país, que relataram seu encontro com esse personagem que, sem dúvida, é um símbolo da tradição folclórica brasileira.

Bendito seja

Com certeza O Saci-Pererê: resultado de um inquérito foi a fonte de inspiração de Lobato, que criou o Sítio do Picapau Amarelo, esse lugar mágico onde habitavam os personagens do folclore junto aos da mitologia grega, onde a matemática e a gramática eram assunto de uma boneca e de um sabugo pensante.

Como ele afirmou na introdução desse inquérito memorável, bendito seja o Saci que nos salvou a todos da ignorância e do desconhecimento desses personagens que são de todos nós, que são todos nós.

Quando a gente se encontra com o nosso folclore, abre-se uma janela imensa de possibilidades, parece que a paisagem que vemos é conhecida, no entanto, ela nos mostra diferentes aspectos que vamos (re)descobrindo ao longo da nossa vida. Acho importante frisar esse aspecto porque para esse encontro acontecer precisamos mais do que celebrar o mês do folclore. Precisamos ouvir e contar, ler e escrever essas histórias de tradição oral com olhos e ouvidos bem abertos para o que elas nos mostram (ou escondem). E a cada experiência com elas, novas possibilidades são reveladas, outras histórias surgem enquanto nos sentimos parte delas, porque sabemos que podemos recontá-las, pois são nossas.

O trabalho com o folclore brasileiro é para toda a vida, como é qualquer trabalho que nos preenche os dias nos ajudando a buscar as respostas para as questões eternas que viemos aqui perguntar.

O Saci diz a Pedrinho uma coisa das mais profundas e que sintetiza brilhantemente como o folclore nos ajuda a acreditar, em nós mesmos, nos outros, na natureza, na vida: “Uma coisa só existe quando a gente acredita nela”. É preciso que a gente se relacione com essas histórias ao longo do tempo. Acreditar nelas nos faz mais fortes, como ficou Lobato ao descobrir os muitos “sacizes” Brasil afora.

Leia: Professor indígena de direito lança livro sobre decolonialismo

Aprendendo com o outro

Finalizo aqui o meu convite para que cada um se pergunte qual o personagem do folclore acredita, qual o que melhor lhe representa. Eu tenho lá o meu, que foi difícil escolher desde o dia que comecei a pesquisar as histórias de tradição oral brasileiras mais profundamente. Gosto de pensar que posso ser a flor de miosótis, a linda flor que, ao ser vista, simboliza o “não me esqueças”. O trabalho do escritor, do contador de histórias é o de lembrar-se das histórias que quer contar, e lembrar aos outros de não esquecer as suas.

Tal como eu, muitos pesquisadores, escritores, atores, cineastas têm o seu personagem predileto do folclore nacional. Tive a curiosidade de perguntar e relatar aqui, para inspirar a todos que estão lendo esse artigo.

Carlos Saldanha, cineasta, autor da série Cidade Invisível, da Netflix

Eu gostaria de ser o Saci.  Traquineiro e livre para virar redemoinho e voar.

Silvana Rando, escritora, autora do livro Salvos por um fio, da Editora Escarlate

Eu queria ser a Mula sem cabeça. Pois não aguento mais ter que pensar! E também, o que os olhos não veem, o coração não sente. E como sou uma mulher muito apaixonada, seria fácil mesmo eu me apaixonar por aí e soltar fogo do meu peito.

Anderson Awvas, ilustrador e design, criador do projeto Folclore BR: Uma nova visão

Eu não sei se tenho um favorito, mas sempre que me perguntam isso eu penso no Negrinho do Pastoreio. O simbólico que ele carrega atravessa os nossos dias constantemente. Na lenda, um menino negro escravizado que é castigado de maneira cruel e revive com a benção da virgem Maria, se tornando um encantado que auxilia as pessoas a encontrarem seus objetos e caminhos. Os meninos negros que são acorrentados em postes e grades ainda trazem muito desse lastro colonial que deveria nos fazer refletir mais no quanto a nossa sociedade ainda tolera e alimenta esse tipo de comportamento desumano com populações periféricas e minorias sociais.

Gustavo Rosseb, Autor da trilogia juvenil As Aventuras de Tibor Lobato, Editora Jangada

Eu gostaria de estar sob a pele do João Pestana. O tal Senhor dos Sonhos. Dizem que ele é o cara responsável por nos fazer sonhar e, ao acordar, perseguir esses sonhos. Então, consequentemente, é o sr. Pestana que faz a roda da vida girar, já que a vida só acontece quando temos algo pelo que sonhar.

Vivo com um pé no sonho e outro na realidade, como uma ponte que transforma sonhos em objetivos, e amo assistir pessoas perseguindo e alcançando seus próprios sonhos. Isso alegra e emociona o meu coração profundamente. Imagino que, por conta disso, o João Pestana deva ser uma entidade pra lá de feliz.

E aí, já descobriu qual é o seu?

*Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira. É pesquisadora do folclore brasileiro e da cultura popular e também realiza palestras e oficinas para educadores, crianças e jovens, sobre educação literária, educação para as mídias e storytelling. Para saber mais acesse: www.entrepalavras.com.br

Leia também

Educação e arte: mulheres contemporâneas para a sala de aula

Edgar Morin e os saberes não curriculares

Envie um comentário

Your email address will not be published.