O Prêmio Nobel da Economia e a Educação

O Prêmio Nobel de Economia de 2019 foi concedido a três pessoas. A única mulher é Esther Duflo, que foi premiada ao lado de Michael Kremer e Abhijt Banerjee. Economista francesa, ela é professora do renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, e aos 46 anos, é a mais jovem e a segunda mulher a ganhar o prêmio em sua área.
O título de seu livro mais famoso, traduzido para 17 línguas – na versão brasileira, A economia dos pobres: repensar de modo radical a luta contra a pobreza global –, reflete o fio condutor de sua extensa produção, associada ao estudo da pobreza e de políticas públicas concebidas para mitigá-la. Sua obra, que transita pelas finanças, saúde, governança e educação, a credenciou a ganhar inúmeros prêmios relevantes, trajetória padrão de qualquer laureado com o prêmio Nobel. Suas pesquisas em educação e saúde foram realizadas em diversos países, como Gana, Indonésia, Índia, Marrocos e Quênia.
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Em muitos desses estudos, efeitos de intervenções foram avaliados de maneira criteriosa utilizando ferramentas até então pouco utilizadas na ciência econômica, os ensaios randomizados controlados (RCT, na sigla em inglês). De maneira semelhante ao que é feito há muitas décadas nas ciências biológicas e da saúde, uma determinada intervenção é aplicada a um grupo de pessoas e os resultados são comparados aos obtidos por um grupo semelhante de pessoas que não foram submetidas à intervenção.
Por exemplo, em 2017, Duflo e colaboradores das universidades de Stanford e Harvard publicaram artigo com resultados de uma intervenção realizada em Gana. Em 2008, 682 estudantes que estavam concluindo o equivalente ao ensino fundamental no Brasil foram sorteados entre 2.064 alunos para receber uma bolsa de estudos. Em 2016, foram avaliados os impactos na trajetória escolar desses estudantes.
Aqueles que receberam bolsa aumentaram em 55% a chance de concluírem o ensino médio em relação aos que não receberam. Os alunos bolsistas também obtiveram melhor desempenho em avaliações de língua materna e matemática, além de apresentarem comportamentos mais adequados de prevenção à saúde. Os autores identificaram também que os efeitos foram mais pronunciados nas meninas quando comparadas aos meninos.
Estudos dessa natureza – nos quais situações controladas e rigorosas de pequena escala são concebidas para fornecer subsídios para aplicações em larga escala – recebem muitas críticas, pois não seria possível controlar todos os fatores envolvidos. Por outro lado, é fundamental que políticas públicas se apoiem em evidências e estudos controlados como os realizados por Duflo. Esses trabalhos, assim como estudos com técnicas econométricas semelhantes, como a chamada Difference in Differences, podem otimizar investimentos públicos nas áreas de saúde e educação.

Nobel da Economia

Foto: Shutterstock


Em 2010, Duflo e colaboradores publicaram estudo em que foi avaliado o efeito de incentivos financeiros para reduzir o absenteísmo de professores em áreas rurais da Índia. Os parágrafos introdutórios do artigo, no qual é feita a contextualização do problema, poderiam ser aplicados à realidade brasileira. Os autores argumentam que a ampliação do acesso da população ao ensino não veio acompanhada do aumento de sua qualidade. Esse fenômeno ocorreu no Brasil nas décadas finais do século passado.
Houve um enorme aumento do acesso das crianças à escola – 1/3 da década de 80 à década de 90 –, que se refletiu no aumento do tempo de escolaridade da população. Entretanto, no caso brasileiro, esse aumento da escolaridade não veio acompanhado de aumento da produtividade do trabalhador, o que foi observado em países como a Coreia do Sul. Cabe aos pesquisadores da área identificar os motivos pelos quais esse fenômeno não ocorreu no Brasil. Obviamente, há muitos fatores envolvidos. No caso específico da Índia, Duflo e colaboradores atribuíram parte da baixa qualidade da educação ao absenteísmo dos professores. Mais importante do que discutir se esse argumento se aplica ao Brasil (políticas de incentivo adotadas pelos estados da federação têm causado grande polêmica), o fato é que países em desenvolvimento têm problemas semelhantes na área educacional; algumas soluções que funcionaram no exterior poderiam ser implementadas aqui.
O Prêmio Nobel da Economia de 2019 dá maior visibilidade à importância do combate à pobreza na solução dos problemas de educação e saúde na população mundial. Essa lição deve ser aprendida por nós brasileiros. Não há nenhuma possibilidade de políticas públicas na área de saúde e educação serem efetivas se não vierem acompanhadas de políticas que visam à redução da pobreza e da desigualdade social.
Fernando Louzada é doutor em Neurociências e Comportamento pela USP e pós-doutorado pela Harvard Medical School

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