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Jogo de empurra

Problemas na relação entre a escola e a família deixam de lado quem protagoniza o processo de aprendizagem: os alunos

Publicado em 10/09/2011

por Redacao

Consta em estudos acadêmicos e nas conversas informais: os professores atribuem às famílias grande parte da dificuldade de avançar no trabalho pedagógico.  Segundo os dados extraídos dos questionários da Prova Brasil, cerca de 80% dos professores atribuem os problemas de aprendizagem ao meio em que os alunos vivem. Para os docentes, os pais não colaboram com a escola e transferem as responsabilidades para os educadores.

Uma pesquisa acadêmica que será apresentada na Faculdade de Educação da Unicamp, em breve, desmonta esse argumento. Após estudar quase mil bilhetes, circulares e avisos enviados por professores às famílias, e entrevistar alunos, pais, professores e coordenadores, a pesquisadora Sandra Dedeschi descobriu que as famílias querem, sim, participar e ouvem a escola. Contudo, reagem da maneira à qual estão habituados – muitas vezes, recorrem à surra – e não recebem da escola qualquer orientação mais educativa.

Ficaram fora do estudo as orientações de caráter geral. Sandra dedicou-se principalmente aos bilhetes e avisos que são, muitas vezes, escritos no próprio caderno dos alunos. De sua amostragem fizeram parte escolas públicas e também particulares. Até aqui há diferenças. Na rede particular, as mensagens são objetivas, claras e contextualizadas. Na escola pública, os bilhetes resumem-se a informar o fato, de forma sintética. “Há um bilhete que diz simplesmente: Pais, a aluna xxx não para sentada”, conta a pesquisadora.

Não se trata de uma questão estilística. Os bilhetes traduzem uma concepção equivocada de relação com a família e com o aluno. O estudo se insere na área da psicologia moral, e parte do princípio de que todos estão implicados na resolução de conflitos na escola. Analisando o mérito das providências cobradas dos pais, Sandra detectou que apenas 34% eram de fato pertinentes à interferência exclusiva da família; todo o restante cabia mesmo à escola – como no caso de um aluno que insistia em ficar em pé.

Bons modos
Outra característica é que não há preocupação em construir um relacionamento polido. Cerca de metade das mensagens vai sem destinatário ou expressões de cortesia, como “bom dia” ou “boa noite”. “Isso, ao invés de favorecer parceria, pode colocar pais e escola como adversários”, relata. O material mostra que não há qualquer sinalização de enfrentamento dos problemas levantados. E como os pais acabam lançando mão de violência física, o quadro não é animador. “Há relatos como colocar crianças de joelho em feijão ou deixá-las estáticas olhando para a parede”, conta Sandra. Segundo ela, ainda que a escola não estimule a violência, passa a ser corresponsável quando sabe que a reação dos pais extrapola os limites e, mesmo assim, continua enviando bilhetes.

Os bilhetes, por fim, excluem os protagonistas da aprendizagem: os alunos. Via de regra, as crianças e adolescentes são ignorados pela escola, sendo tratados como meros portadores da informação. “Os conteúdos são sempre negativos – os bilhetes só existem para os problemas, e não registram os eventuais avanços”, conta. As constatações da pesquisa acadêmica refletem o que os que trabalham diretamente com as escolas já sabem na prática. Para Káthia Smole, coordenadora do Instituto Mathema, colocar a família como desinteressada é um preconceito. “Se a escola ajudar as famílias a enxergar as oportunidades, isso mudaria, pois o problema está mais na falta de repertório”, diz.

Para a pesquisadora, a escola deveria dizer mais claramente o que espera da participação da família. “As tarefas são mal colocadas e estão muito acima do que eles podem fazer. Não dá para esperar que pais semialfabetizados acompanhem de perto e ajudem na lição de casa”, diz. “Mas, se a escola propuser formas mais concretas e realistas de intervenção, os pais estão dispostos”, acredita. Do mesmo modo, Káthia tem visto que as famílias respondem também à oferta de bens culturais, quando têm informações. “Muitos pais não sabem que existem cinemas e teatro gratuitos, como os oferecidos pelo sistema S (Sesi, Senac e Senai), e que precisarão gastar apenas a condução”, conta. Para ela, a escola poderia ser um centro de divulgação das oportunidades culturais na
comunidade. ( P.C. )

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