Três lições da pandemia para a educação

Saúde física e emocional, adaptação e equipe unida são descritas por especialista com 20 anos de setor como fundamentais para o momento presente e futuro

Após um ano de vida pandêmica, muito esforço e sacrifícios, a primeira sensação é de que, sob a lente da mobilidade, estamos presos a março de 2020. O novo fechamento das escolas em São Paulo e em boa parte dos municípios brasileiros, devido ao recrudescimento da crise sanitária, tem imposto novas (e antigas) preocupações com a saúde e o bem-estar de nossas famílias e das famílias dos alunos, professores e de toda a comunidade escolar. Para simplificar, a segunda sensação é de que a pandemia piora antes de melhorar.

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A história é repleta de exemplos de bons líderes que antecipam desafios futuros, o que não é diferente nas mídias executivas e de educação que sigo. A tentativa de acertar o futuro e empurrar o pensamento para lugares de superação e de sobrevivência é, no mínimo, muito interessante. Vale estar inteirado, mas vale também checagens e filtros, considerando tantos diferentes contextos de nosso país.

O fato é que esta pandemia terminará e causará mudanças permanentes em nosso modo de vida, incluindo a forma como ensinamos e aprendemos.

No frequente contato que tenho com educadores e gestores de escolas de todo o país, sinto que uma das maiores dificuldades dos líderes é manter a constância. Considerando tantos altos e baixos, gostaria de compartilhar aqui três pontos que podem servir de inspiração.

  1. Saúde física e emocional

Esse é o ponto inicial e fundamental. A saúde de alunos, professores, colaboradores e famílias deve preceder tudo o que fazemos. Em geral, esse cuidado costuma ser secundário em relação à sobrecarga de deveres de casa, pressão para vencer os conteúdos e priorização excessiva de exames, especialmente no ensino médio. Acrescente a isso, um desalinhamento em relação às desigualdades no acesso à tecnologia e a outros recursos de aprendizagem. Aqui pode estar a alavanca do porquê tantos alunos e profissionais da educação estão angustiados. Pessoas aflitas não ensinam nem aprendem bem, nem fazem boas escolhas. Embora os educadores não possam ser enfermeiros e médicos, e as escolas não sejam clínicas de saúde, podemos escolher fazer mais para incorporar com maior profundidade o bem-estar em nossos objetivos e cultura. Isso deve ser evidenciado em pequenas ações práticas, para sermos coerentes. Comece com um simples “Como vai você?”.

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Ricardo Tavares FTD

Ricardo Tavares lidera desde 2018 um projeto de transformação digital                                                                    

  1. Não há plano fixo

E creio que devemos levar esse aprendizado mesmo no pós-vacina. Ter objetivos claros não impede de arriscarmos novos métodos para alcançá-los. Nossos alunos e professores interagem efetivamente de várias maneiras que não envolvem um professor parado na frente da sala e da câmera. Sabemos disso há muito tempo, mas agora ficaram evidentes os benefícios de olhar para uma pedagogia centrada no aluno, baseada na investigação e focada em experiências de aprendizagem personalizadas. Há plataformas digitais de aprendizagem que entregam, além de conteúdos e atividades vinculados aos materiais impressos, temos um bom exemplo dentro da nossa casa, mas o que realmente me espanta, e me anima, é ver o que escolas e professores estão conseguindo fazer com aplicativos e outras soluções digitais, muitos gratuitos como o Mentimeter, o Kahoot e Padlet, só para citar alguns. E que também é possível ir além do WhatsApp, Meet, Zoom e Teams.

  1. Equipe é tudo

John Donne (1623) afirma que “nenhum homem é uma ilha”, em seu épico poema que serviu de inspiração para filme de mesmo nome (1943). Quando perdemos alguém, vai-se um pouco de nós, mas o fato é que somos um mosaico com pedacinhos deste que se foi e muitos outros alguéns. Não precisamos esperar que os sinos dobrem para essa reflexão, podemos tomar com esta mensagem um impulso hoje para viver contando, mais do que nunca, uns com os outros. É impressionante como a somatória de um time sempre será exponencialmente mais poderosa do que uma única mente brilhante. Fiquem todos bem. Sigamos. Juntos.

*Ricardo Tavares é diretor-geral da FTD Educação.

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